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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Perfectus - Capítulo 1: Barry Granger


2024

Em Nova York, o dia está belo, o trânsito está tranquilo, os policiais estão patrulhando as ruas e comendo rosquinhas que os matarão de diabetes ou colesterol alto no futuro. As crianças estão caminhando pelas ruas de mãos dadas com seus pais, outras com suas mães, segurando aqueles balõezinhos alegres. Os casais de todos os gêneros estão passeando pelas ruas e pelos parques do jeito que os progressistas adoram. Sim, tudo está uma maravilha.
Na Jurgens Shoes, um jovem de 17 anos cheinho, de pele clara e cabelos castanhos ondulados penteados para trás está esperando em uma fila junto com cinco outros jovens para realizar uma entrevista de emprego, sendo o único dos jovens a estar trajando uma camisa social de cor branca, enquanto os outros estão vestidos de forma mais informal. Ele levou bem a sério o conselho de vir bem vestido para a entrevista de emprego. Ansioso, ele olha para o relógio do celular, querendo saber se já é a hora da entrevista. Ele chegou ao local cerca de 20 minutos atrás, sendo o primeiro candidato a chegar. Seu pai lhe disse várias vezes que chegar com antecedência a uma entrevista de emprego é algo bom, e ele está esperando dar o seu melhor já que esta é a sua primeira entrevista de emprego.
Um dos funcionários vem até eles e pede para eles entrarem na sala à frente deles. O jovem acompanha os outros rapazes até a sala. O funcionário fecha a porta e, sorridente, se apresenta para os garotos:
- Oi, meu nome é Wilbur. Eu tenho trabalhado na Jurgens Shoes por quase um ano e hoje estarei aqui para ajudar vocês a conseguir a vaga para trabalhar como vendedor na Jurgens Shoes em meio período. Antes de começarmos, eu gostaria de saber o nome de cada um de vocês.
Cada um dos garotos diz o seu nome, até que chega a vez do garoto cheinho:
- Barry, Barry Granger. – este é o nome do garoto.
Após as apresentações serem feitas, Wilbur explica que a entrevista se tratará de avaliar o desempenho dos candidatos para vender os produtos da loja.
Eles se posicionam para receber os clientes. Os outros garotos conseguem abordar sem problemas os clientes que chegam à loja. Barry, no entanto, não consegue. Ao atender o seu primeiro cliente, ele, de tanto nervosismo acaba gaguejando ao abordar o cliente. Minutos depois aparece outro que pede para ele verificar o preço de um par de tênis. Ao andar ele tropeça numa pilha de caixas de um par de tênis recém lançados.
O processo de entrevista dura ao todo uma hora e meia. Após o encerramento, Wilbur diz a Barry e aos outros candidatos que aquele que for contratado receberá a ligação no dia seguinte. Todos saem da Jurgens Shoes, exceto um.
Barry dá três passos, mas para ao perceber que seu tênis direito está desamarrado, ele se agacha e o amarra. Ele ouve a voz do candidato que havia ficado, saindo feliz da Jurgens Shoes e falando com alguém pelo celular, dando a notícia de que recebeu o emprego. Barry tem uma reação indiferente, apesar de estar chateado por não ter conseguido o emprego ele sabe que seu desempenho foi péssimo.
Ele se levanta, e uma moça de cabelos desgrenhados, roupas largas e fedendo à maconha lhe dá um folheto de divulgação da campanha presidencial de Ruth Renée Ford, atual Presidente dos Estados Unidos da América pelo Partido Democrata e que está se candidatando para a reeleição. Barry acena com a cabeça e após a moça se distanciar ele amassa o folheto e joga em um cesto de lixo próximo dali.
Trinta e cinco minutos depois ele chega ao prédio em que mora junto com seus pais. Ele aperta o botão para chamar o elevador que chega ao andar térreo, cinco minutos depois. Do térreo, o elevador vai para o primeiro andar. Saindo do elevador, Barry caminha pelo corredor, com o som dos seus passos ecoando pelo local. Ele vai até a porta do apartamento 12, o apartamento onde more, e destranca a porta. O apartamento está vazio já que a este horário os seus pais ainda estão no trabalho. Ele é recepcionado pelo seu gato, Bucky, um gato branco com manchas pretas de quatro anos que Barry encontrou junto com sua irmã mais velha em uma lixeira.
Ele se senta no sofá, com Bucky subindo no sofá e sentando-se ao seu lado, e ele manda uma mensagem de texto para sua melhor amiga, Evelyn:
- “Oi”.
Depois de alguns minutos ela responde:
- “Oi”.
- “Fiz a entrevista de emprego hoje”.
- “Sério? E como foi?”.
- “Eu não fui bem”.
- “Por quê?”
- “Eu fui péssimo. Até caí em cima de uma pilha de caixas”.
- “MEU DEUS, HAHAHAHAHAHA”.
- ”Não é engraçado”.
- “Desculpe Barry, mas não tem como não rir quando você tropeça”.
- “Acho que faz parte do meu charme 😄
- “HAHAHA... Só você mesmo. Barry, escuta, tem como você me ajudar com a prova de história. Estou tendo dificuldades em entender”.
- “Sem problemas 😃. Que tal você vir aqui em casa amanhã depois da escola? Aí a gente estuda junto. Que tal?”.
- “Pode ser”.
- “Beleza então”.
Ele ouve a porta ser destrancada e aberta. É a sua mãe, Margareth, que entra e chama por ele. Margareth é mulata e tem 48 anos. Ela trabalha na loja de uma amiga para ajudar com as despesas da casa, sendo esse o principal motivo para Barry ter ido procurar um emprego:
- Oi filho.
- Oi. – diz ele dando um beijo no rosto dela.
- E então, como foi a entrevista?
-... Bem?
- Você está perguntando ou respondendo?
- Er... Foi bem... Mal.
- Você pode muito bem conseguir a vaga.
- Acho que não.
- Por quê?
- Quando eu saí eu escutei um dos candidatos saindo felizes dizendo que conseguiu a vaga.
- Tem certeza?
- Sim.
- Mas eles disseram se iam avisar alguma coisa?
- Bem, o cara que fez o processo de entrevista com a gente disse que ia ligar pra quem tivesse recebido a vaga amanhã, mas acho que ele já deu a notícia para o escolhido.
- Mas espere a ligação.
- Deixa pra lá, mãe. Eu vou ter que ver outra coisa.
- Continue se focando nos estudos e não dê ouvidos ao seu pai.
- Mas é minha responsabilidade. Eu preciso arranjar um emprego.
- Barry, apenas se preocupe com a escola e em conseguir a bolsa de estudos para a faculdade.
Alguns minutos depois, Barry está em seu quarto estudando para a prova através de um resumo da matéria que ele digitou. Enquanto está sentado diante do computador e lendo o resumo, Bucky sobe em cima do teclado do computador:
- Bucky, sai daí – grita Barry.
Às sete horas da noite chega o pai de Barry, Timothy Granger, branco, estatura mediana, olhos castanhos, cabelo preto e um pouco calvo, que trabalha como jornalista. Apesar de o salário ser bom, não é o suficiente devido a inexplicável habilidade de Timothy em obter dívidas:
- Barry, seu pai chegou.
- Já estou indo.
Barry sai do quarto e vai até a sala:
- Oi, pai.
- Oi. Como foi a entrevista de emprego?
- Tenho que aguardar a ligação deles. – diz Barry, ocultando o que realmente aconteceu.
- Então vamos torcer para que você consiga para assim ajudar com as despesas de casa. Você tem 17 anos, já está mais do que na hora de arranjar um emprego. Margareth, o que tem para comer?
- Já estou preparando o jantar. – responde Margareth.
Alguns minutos depois o jantar está pronto. Eles se sentam à mesa e Timothy faz a oração. Após dizerem amém, ele liga a televisão e coloca no noticiário. A notícia está sendo sobre uma série de roubos de uma gangue que tem estado em atividade nos últimos dois meses, deixando cinco mortos e oito feridos nos assaltos:
- O que você colocou na omelete? – pergunta Timothy.
- Cury. – responde Margareth
- Já disse que odeio que coloque Cury na omelete. Tem que fazer a comida para nós comermos, não para vocês comerem.

 A notícia seguinte é sobre uma explosão que ocorreu em um hospital em Nova Jersey, e embora haja suspeitas de que seja um ataque terrorista, os apresentadores do telejornal apenas se referem como algo aleatório:
- Por que eles simplesmente não falam que é um ataque terrorista? – pergunta Barry.
- Porque eles não têm provas. – responde Timothy.
- Mas já está na cara que é.
- Barry, eu quero ouvir a notícia.
- E agora, vamos falar das eleições. – diz um dos apresentadores – As pesquisas indicam que Ruth Renée Ford está à frente das intenções de voto, enquanto que o candidato do Partido Republicano Ryan Trevor aparece em segundo lugar nas intenções de voto. Trevor tem 58 anos e é atualmente senador do estado do Alabama, sendo bastante conhecido por sua postura conservadora e por frases polêmicas, como quando se referiu ano passado aos integrantes dos movimentos Black Lives Matter, LGBT e Feminista como “um bando de degenerados que corroem nossa sociedade”. Ele também é um dos maiores críticos da Presidente Ford principalmente no que se refere a ter liberado a fronteira dos Estados Unidos para imigrantes de países muçulmanos, tendo dito também equivocadamente em relação a isso que “a América está se tornando a babá de terroristas”.
- Ruth Renée Ford – o outro apresentador prossegue – completou na semana passada 40 anos de idade, sendo a presidente mais jovem já eleita na história dos Estados Unidos. Sua gestão se centrou na promoção dos direitos sociais para as minorias e em dialogar com nações que possuíam divergências com os Estados Unidos, conseguindo assim uma estabilidade na política externa nunca antes vista. Um dos grandes feitos de Ford foi construir um dos maiores hospitais públicos do mundo em parceria com o cientista e empresário Nicholas Connery. E por falar em Connery, depois de amanhã haverá em Nova York a 6ª edição da Daniel Expo, a maior exposição da América no que se refere a avanços científicos e tecnológicos. Esperava-se que a Presidente Ford pudesse aparecer no evento, mas ela anunciou que não poderá comparecer. Connery e a Cassidy Moore disseram que terão uma novidade que irá revolucionar o mundo da medicina.
Dia seguinte. Barry acorda às 05h30min, querendo continuar na cama e nunca mais acordar. Ele toma banho e vai se trocar, enquanto a mãe dele acorda e prepara o café da manhã para eles. Ele termina de se trocar, penteia o cabelo para trás e coloca mais água e ração para Bucky, indo em seguida para a cozinha beber água:
- Bom dia. – diz Margareth beijando o rosto de Barry.
- Bom dia. – diz Barry.
- Seu rosto está quente. – diz ela tocando o rosto dele – Você está bem?
- Só com sono.
- Fique aí que eu vou pegar o termômetro.
- Mas eu não estou com febre.
- Mas o seu rosto está quente.
Margareth pega o termômetro e o coloca em baixo da axila de Barry. Depois de dois minutos o termômetro apita e ela o retira, vendo que o termômetro está marcando 38 graus:
- Meu Deus, você está com febre.
- Mas eu não estou me sentindo mal.
- O que houve? – pergunta Timothy, que acabou de chegar à cozinha.
- Barry está com febre.
- Quantos graus?
- 38.
- 38? E você tá se sentindo como?
- Eu estou bem. – responde Barry.
- Nada mesmo? Nenhum mal estar?
- Não.
- Bom, se a temperatura não diminuir até amanhã você leva ele ao médico.
Eles tomam o café da manhã e saem de casa. Timothy leva Margareth de carro até a loja para depois ir ao jornal em que trabalha enquanto Barry segue a pé até a escola, que fica somente a algumas quadras de distância. Barry estuda na Escola Secundária Jackson desde 2022, porém está longe de ser o aluno mais popular da escola. Imagine estar em uma escola em que você seja praticamente o único a não se vestir como se estivesse prestes a ir uma merda de concerto de rap ou como uma merda de um hipster, praticamente o único que não escutasse as músicas da atualidade por não passarem de um monte de merda, que você fosse o único que soubesse quem foi Elvis Presley e que, durante uma pesquisa que fizeram na escola sobre qual seria o melhor candidato, você fosse o único a dizer que seria Ryan Trevor. Pois bem, essas são as razões que Barry está longe de ser popular e é por isso que é rejeitado por muitos dos alunos.
Ao atravessar a rua, Barry quase é atropelado por um carro vermelho de última linha, cujo motorista está mostrando o dedo do meio para ele e chamando-o de retardado.  Apesar de não ver quem é o motorista, Barry sabe muito bem quem é: seu rival Alan Garrett. Se Barry é com certeza o garoto menos popular, Alan é o mais popular.
Alan é um jovem de cabelos castanhos claros e lisos, pele branca, alto, mas não mais alto que Barry, magro com um porte atlético. Alan é filho de um casal de imobiliários e estudou a vida inteira em escolas particulares, porém quando a Presidente Ford aprovou uma lei que acabou com o ensino privado, Alan passou a estudar na Jackson no mesmo período que Barry começou, e desde então tem humilhado o rapaz como mero hobby.
Alan estaciona o carro e atravessa o portão da escola no mesmo instante que Barry está:
- Por que você fez isso? – pergunta Barry gritando.
- Fiz o que. Só estava dirigindo o meu carro superpotente.
- Você quase me atropelou.
- E daí? Se eu tivesse te atropelado ninguém sentiria sua falta.
Alan vai conversar com alguns colegas enquanto Barry segue em direção ao seu armário, sentindo uma imensa vontade de surrar Alan. Ao chegar lá, ele abre a porta e pega os livros que irá usar, fazendo questão de deixar os itens restantes ordenados. Provavelmente é o único garoto na escola que se preocupa em deixar o armário arrumado.
Ele fecha a porta do armário e vê Evelyn se aproximando à sua direita. Ele acena para ela e ela acena de volta com um sorriso, e só pelo fato de vê-la sorridente isso já o deixa mais calmo e alegre. Evelyn Tyler é uma jovem de cabelos louros com cor de avelã e lisos, além de ter olhos castanhos, pele branca com sardas no rosto e uma beleza inocente. Ela também começou a estudar na Jackson em 2022, tendo também conhecido Barry nesse período. Inicialmente eles mal se falavam, tendo se Evelyn quem se apresentou para ele, mas com o tempo começaram a conversar até se tornarem grandes amigos. Porém, o carinho de Barry por Evelyn é mais profundo, pois nos últimos meses ele acabou desenvolvendo fortes sentimentos pela jovem e tem medo de contar isso a ela por medo de arruinar a amizade:
- Como você está? – pergunta ele.
- Estou bem. Então vai dar pra gente estudar hoje para a prova?
- Claro. A não ser que você tenha algo pra fazer.
- Não, eu estou de folga hoje. – ela trabalha em uma loja de cosméticos desde 2023 – E a sua mãe, como ela tá? Faz um tempão que não a vejo.
- Ela está bem. Talvez dê para você encontrar ela hoje.
- Não sei, não vou poder ficar muito tempo. Então a gente se encontra no portão depois que acabar a aula.
- Pode ser. Eu te mando um SMS.
- Ok. Eu vou lá pra sala.
- Até mais.
- Ate.
- Olha a bola! – alguém grita para Barry.
Ao olhar de onde está vindo a voz, uma bola de basquete acerta seu rosto:
- Barry, você está bem? – pergunta Evelyn.
- Só o meu nariz que tá dolorido.
- Qual é Barry, é só uma bola. – diz Bob.
Além de Evelyn ser a melhor amiga de Barry, o rapaz também tem amizade com Bob, Gary e Eddie, um trio de jovens mulherengos que mais tratam Barry como seu bobo da corte particular do que como amigo, exceto quando é período de provas:
- Vocês são idiotas ou o que? – grita Evelyn, furiosa com eles.
- O Barry está bem. – diz Eddie.
- Sem contar que foi engraçado como a bola acertou a sua cara. – diz Gary – A gente precisa tirar uma foto na próxima.
- Pra que? – pergunta Barry.
- Porque é engraçado. – diz Bob.
- Meu Deus, como vocês são idiotas. Barry como você continua andando com eles?
- Simples, somos descolados e só andando com a gente que ele vai conseguir pegar mulher.
- Eu te vejo depois, Barry.
- Até mais então.
- Qual é Evelyn, volta aqui.
- Deixe-a em paz, Bob.
- Vai querer defender sua namorada, Barry?
- O que? Não, somos melhores amigos.
- Aí está porque você precisa continuar andando com a gente. – diz Gary.
- A propósito, grande Barry... – diz Bob colocando a mão direita sobre o ombro esquerdo de Barry – Como vamos fazer em relação à prova de história?
- Vocês querem ajuda para estudar?
- Não, a gente quer uma cola, animal. Pra que estudar se podemos usar a grande fonte.
- Ou vocês poderiam estudar.
- Não, a gente prefere colar.
- Eu não vou passar cola pra vocês.
- Mas somos seus amigos, você tem que ajudar a gente.
- É simples, estudem.
- Cuzão! – grita Bob enquanto entra em na sala ao lado acompanhado de Gary e Eddie.
Mais tarde, após o término da aula, Barry e Evelyn seguem para o apartamento dele. Ao abrirem a porta são recepcionados por Bucky.
- Ele é bonitinho. – diz Evelyn enquanto acaricia o bichano – Ele tem quantos anos?
- Quatro.
- Onde foi que você o achou, mesmo?
- Quatro anos atrás. Eu e a minha irmã estávamos voltando para casa e aí o encontramos na lixeira miando. Ele não tinha nem um mês de vida.
- Vocês fizeram um bom trabalho com ele. E a sua irmã? É Raven o nome dela, não é?
- Sim. Ela está bem, tá trabalhando em Los Angeles.
- Ela e seu pai voltaram a conversar?
- Não. – Raven, a irmã mais velha de Barry, saiu de casa há um ano devido a intensos desentendimentos entre ela e Timothy. Barry e sua mãe mantém contato com ela, mas Timothy não.
- Quem sabe um dia. Eles não podem ficar sem se falar para sempre.
- Sinceramente eu duvido que isso aconteça. Mas deixa pra lá... Sente aí, sinta-se em casa.
- Obrigada. Posso comer alguma coisa, eu estou com fome.
- Tem bolo na geladeira.
- Barry, eu estou de dieta. E caso não tenha percebido, eu tenho pneuzinhos.
- Por que vocês mulheres são tão exageradas quando se tratam de aparência?
- Porque odiamos ver uns quilinhos a mais na balança.
- Só aumenta um quilinho aí diz que está gorda, se não passou maquiagem ou coisa do tipo diz que tá parecendo bruxa. Você está ótima – diz Barry após olhar Evy da cabeça aos pés – E comer um pedaço não vai fazer mal.
- Ok, mas se eu notar um aumento de peso quando eu for me pesar, a culpa vai ser sua.
- Ah, sim porque um pedaço de bolo vai fazer você ter a bunda da Rosie O’Donnell. – diz Barry rindo.
Enquanto Evelyn vai a geladeira pegar o bolo, Barry pega o termômetro pra verificar sua temperatura. Quando o processo termina, ele vê que a sua temperatura está em 36 graus:
- Tá com febre? – pergunta com a mão na frente da boca por estar mastigando enquanto fala.
- O que?
- Febre. – diz ela depois de engolir o pedaço do bolo.
- Ah, bem eu tava com 38 hoje mais cedo, mas parece que a temperatura abaixou.
- 38? Não seria melhor você ir ao hospital ou coisa do tipo?
- Eu estou me sentindo bem.
- Mas quando se trata de saúde, você não pode ficar desatento.
- Você tá parecendo com um comercial.
- Barry, eu estou falando sério.
- Eu sei, mas eu estou me sentindo bem. Mas se eu ficar com febre ou outra coisa semelhante eu juro que vou correndo para o New Life. – diz ele rindo.
- A tia da minha amiga vai fazer uma cirurgia lá semana que vem. – diz Evelyn enquanto se senta no sofá.
- O que aconteceu com ela?
- Lembra-se daquela minha amiga, a Gill?
- É aquela que foi com você no show da Alana Memphis ano passado?
- Isso. – ela dá uma colherada no bolo – Então – ela mastiga e engole o pedaço do bolo – a tia dela escorregou e caiu da escada e acabou quebrando o joelho.
- Entendi. Quer mais alguma coisa?
- Sim. Pode me ajudar com a prova de história, por favorzinho? – pergunta ela fazendo biquinho
- Claro. – diz ele rindo – O que você não está entendendo?
- Deixe-me ver... Nada. É muita coisa pra memorizar.
- Então vamos começar.
Depois de uma hora estudando, Barry consegue ensinar a matéria toda para Evy:
- Então, mais alguma dúvida?
- Não, acho que entendi, mas estou com medo, não quero tirar nota baixa.
- Relaxa você vai conseguir.
- Eu não tenho tanta facilidade em história quanto tenho com matemática e física.
- E eu tenho dificuldade nessas duas. Quer mais alguma coisa?
- Não se incomode. Obrigada pelo bolo e pela ajuda, tenho que voltar pra casa.
- Já?
- É que eu tenho uma coisa pra fazer.
- Eu te levo até lá embaixo.
- Não precisa, mas obrigada. Tchau. – diz ela sorridente.
- Tchau.
Evy sai e fecha a porta. Barry repousa no sofá e pensa nela:
- Talvez um dia... Ah, quem eu estou querendo enganar. – diz ele para si mesmo.
Ele caminha até o quarto, frustrado com ele mesmo:
- Eu poderia dizer a ela, mas ela pode me odiar. E se eu ficar parado sem fazer nada eu vou perder ela do mesmo jeito. Idiota covarde!
Após trocar de roupa, Barry usa o banheiro e lava as mãos, ainda frustrado com o fato de não ter coragem para revelar seus sentimentos para Evelyn. Ele sai do banheiro e entra em seu quarto, se senta na cadeira e liga o computador. Ele acessa sua conta do Facebook e apenas olha algumas atualizações, entre elas uma foto de Evelyn com Dylan, um jovem de cabelos castanhos e pele bronzeada, e que também tem quatro anos a mais que ela. Já faz aproximadamente um mês que os dois se conhecem. De acordo com o que Evelyn contou para Barry, ela e Dylan se conheceram em um show de reggae. Os dois começaram a conversar e viram que tinham química. Após esse dia, ela e Dylan passaram a se falar todos os dias e a se encontrarem ocasionalmente, o que faz ele se perguntar se o tal compromisso que ela tinha não seria referente a ele.
Barry olha a foto com o sentimento de desaprovação estampado em seu rosto. Sua raiva é tão grande quanto o temor de estar prestes a perder Evelyn. Ele fecha a janela e coloca o computador em estado de hibernação. Ele vai até a cozinha e lava a louça, o que para ele, além de ser algo costumeiro, o faz se acalmar quando está nervoso. Em seguida ele limpa a caixa de areia de seu gato e depois volta pro seu quarto. Ele coloca a mochila em cima da cama, religa o computador e começa a estudar para a prova de amanhã.
Mais tarde, sua mãe chega:
- Oi filho. – diz ela após entrar.
- Oi. – diz ele saindo do quarto e indo vê-la na sala
- Sua febre melhorou?
- Acho que sim. Fui medir a temperatura e estou com 36.
- 36? Diminuiu bem rápido. Vista a sua camisa e calça.
- Por quê?
- Temos que ir ao Salão do Reino.
- Eu tenho prova amanhã.
- Você pode estudar de novo quando voltar.
- Por que eu tenho que ir?

- Barry, se vista.
Contra a sua vontade, Barry veste uma camisa amarela de manga comprida, uma gravata preta, uma calça cor marrom escuro e sapatos pretos. Tendo se vestido ele pega uma pasta preta desbotada onde estão guardados a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, o Cântico e alguma outra publicação, e se dirige para o carro depois que seu pai chega do trabalho. Depois que os pais de Barry terminam de se arrumar, eles entram no carro e seguem para o Salão.
O tal Salão é o nem de longe maravilhoso Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, um lugar onde ensinam os princípios cristãos de forma deturpada, onde a sua fé é medida no quanto você passa o seu dia trabalhando de graça para o Corpo Governante entregando folhetos e revistas coloridas que comentam com alegria o fim do mundo enquanto se privam de ter uma vida social.
Margareth pretendia se sentar em uma das fileiras do fundo, mas Timothy faz questão de sentar-se em uma das primeiras fileiras. Barry permanece sentado ouvindo pela milionésima vez sobre o fim do mundo e que somente aqueles que estão dentro da Organização é que serão salvos. Após duas horas o culto termina, e Barry quase sai correndo para o lado de fora do local. Enquanto espera seus pais saírem de lá, o que provavelmente irá demorar, ele fica lendo uma coletânea de histórias em quadrinhos de Star Wars que baixou no celular recentemente.
Mais tarde, Barry está tendo um jantar, não um jantar tedioso e cheio de reclamações como quando tem com os seus pais, mas sim um jantar a luz de velas com Evelyn. Ela está trajando um vestido branco e está com um batom rosa escuro, enquanto que Barry está trajando um smoking:
- Obrigada por ter me convidado para jantar Barry. – diz Evelyn, sentada de pernas cruzadas, segurando uma taça em sua mão direita.
- Eu fiz isso porque queria que você se sentisse especial. – diz Barry prestando atenção nas pernas de Evelyn, que estão cruzadas de forma mais sexy que Sharon Stone em Instinto Fatal.
- Levanta. Quero te dar uma coisa.
Após ela se levantar, Barry se levanta em seguida:
- Feche os olhos. – diz ela.
- Está bem.
Barry fecha os olhos e sente Evelyn tocar sua face e sente o seu respirar e o seu hálito cada vez mais perto, até que os lábios dela tocam os seus e a língua dos dois se entrelaça. Enquanto ela está abraçada a ele, ele coloca a mão direita na cintura dela e a esquerda nas costas. Os dois cessam o beijo e se olham:
- E agora um bônus. – diz ela sorrindo.
Ela tira o vestido, ficando apenas com as roupas íntimas. No entanto, justo no momento em que ela iria abrir o sutiã, o sonho do jovem é interrompido pelo despertador do celular, fazendo com que ele abra os olhos e a imagem de Evelyn se despindo diante dele se desvaneça:
- Ah, filho da puta! – acorda ele irado, levantando-se bruscamente e socando o seu travesseiro – Nem mesmo em sonho eu consigo, que merda!
Mais tarde, após chegar a escola, Barry entra no corredor caminhando até seu armário, onde encontra Bob, Gary e Eddie esperando por ele:
- Barry! Chega aí meu amigão, estamos precisando de ajuda aqui. – diz Bob em um tom animado.
- Sobre? – pergunta Barry.
- Como você sabe, vamos ter a prova de história hoje.
- Eu não vou passar...
- A gente bolou um jeito de você passar cola tranquilo. Só você sentar no meu lugar, aí a professora não vê você. – diz Eddie.
-... Então... – diz Barry, sentindo-se inseguro quanto ao plano para poder passar cola.
- Então o que? Não vai dar pra trás que nem na última vez?
- A professora tava olhando pra minha cara na hora que você pediu cola na última prova. Quando eu posso eu passo a cola, só que os professores tão mais espertos este ano do que no ano passado.
- Barry, por favor, quebra esse galho vai?
- Não vai dar certo. Aposto que quando a professora entrar ela vai me mudar de lugar.
- Tenha pensamento positivo. – diz Eddie.
- Mas foi isso que aconteceu na última prova dela e na prova de biologia. A gente combinou o esquema pra passar cola, mas aí eles me mudaram de lugar.
- Barry, você pode parar de ser pessimista nem que seja uma vez na sua vida?
- Não estou sendo pessimista, e sim realista. E vocês não tem já uma colinha?
- Não. Por isso precisamos da sua ajuda.
- Não seria mais fácil se vocês já tivessem uma cola com vocês?
- Você é mais confiável. Então, dá pra você seguir o esquema?
-... Tá bom, tá bom. Eu vejo alguma coisa. – diz Barry, ainda duvidando se o esquema vai dar certo.
- Isso aí! – diz Bob, agora animado.
A sala de aula está bem agitada. Entre conversas, bolinhas de papel, conversas no celular e downloads de vídeos pornôs, muitos usam os minutos que restam para o início da prova para anotar respostas. A professora, uma mulher gorduchinha e baixinha com uma expressão que lembra a de uma constipação, chega à sala, estragando os planos dos amigos de Barry:
- Sr. Granger faça o favor de sentar aqui na frente.
- Bosta. – reclama Gary em voz baixa.
Enquanto Barry consegue fazer a prova tranquilamente, os outros na sala tratam a prova como uma luta por sobrevivência. Prestando atenção nos movimentos da professora, cada aluno passa e recebe cola, de forma quase perfeitamente cronometrada.
A prova acaba, mas muitos estão insatisfeitos, incluindo os amigos de Barry que praguejam ininterruptamente. Após a aula, Barry se dirige para o seu armário, colocando os livros ali dentro. Uma garota se aproxima dele. Seu nome é Megan Schneider, loira, olhos azuis, belo corpo. Uma das garotas mais populares da escola e a única da categoria a conversar com Barry, mesmo que na maioria das vezes seja por causa de algum trabalho ou prova:
- Oi Barry. – diz ela sorridente.
- Oi. Como vai?
- Lembra-se daquele trabalho de biologia para amanhã?
- Sim, tem que entregar um resumo por escrito.
- Então, eu fiz.
- Bom para você.
- Mas não sei se fiz certo. – ela dá o trabalho, que estava segurando por trás, pra ele.
- O que você quer que eu faça?
- Só que você veja se tá tudo certo.
- Ah, tudo bem. Deixa-me olhar. – ele dá uma lida no trabalho – É, tá bom.
- Mas eu acho que não tá muito bom. Pode arrumar pra mim? – enquanto ela fala, ela estende os braços para baixo, fazendo com que os seios sejam notados.
- Escute eu... – ele fica distraído com os seios – Ah... Então... – ele volta o olhar para os olhos dela – Mas tá tudo certo aqui.
- Eu não confio em mim para fazer esse tipo de coisa. É um assunto muito complicado pra mim.
- Olha... Eu posso tentar ver...
- Obrigada, você é um amor.
Megan sai deixando Barry com o trabalho dela em sua mão:
- Eu devia cobrar da próxima vez.
Bob chega para guardar seus livros em seu armário que fica do lado do de Barry:
- Trouxa. – diz Bob rindo.
- O que foi?
- Você é trouxa.
- Por quê?
- Você ainda pergunta? Você foi pego no truque feminino mais antigo que existe – ele usa as mãos para simular que são seios – A hipnose de seios.
Barry ri:
- Não tem graça, é um truque mortífero. – diz Bob – Especialmente para escravocetas como você.
- O que? Eu não sou um escravoceta.
- Você vive querendo agradar as garotas na esperança de que elas notem você veja que você é um cara legal, e, sei lá, talvez deixem você enfiar seu pinto na boceta delas.
- Eu não faço isso.
- E quanto à Evelyn?
- Ela é minha melhor amiga.
- Barry, todo mundo sabe que você é apaixonado por ela.
- Cala a boca! – grita Barry.
- Viu só? Mas uma coisa que você tem que entender, garotas não querem caras bonzinhos, aliás, quanto mais bonzinho você for, mais pisado você será. Pegue por exemplo eu, Gary e o Eddie. Nós comemos as garotas e depois agimos como se elas não existissem, e aí sabe o que elas fazem?
- Correm atrás de vocês? – diz Barry, cansado de ouvir isso bem como de ver essa cena inúmeras vezes.
- Exatamente! – grita Bob batendo nas costas de Barry – Você pisa nelas e elas se agarram em você. A gente conseguiu comer todas as garotas da Coletiva Feminista daqui da escola. Elas ficam com esse papo de “ai, odeio machismo”, mas você tem que ver como elas são na cama.
- Espera... Todas?
- Só as gostosas. Mas enfim... Se você se for bonzinho, um docinho, a única coisa que vai conseguir é continuar virgem. Lembra que tinha uma garota que você tinha ficado a fim e o Eddie comeu ela uma semana depois?
- Não tem como esquecer já vocês vivem me lembrando disso.
- Porque é engraçado. O ponto é que garotas não se interessam por caras bonzinhos. A única função de caras como você é ser o retardado que vai consolá-las quando caras fodões como nós comerem a boceta delas e mandarem elas se foderem. E mais, garotas adoram barriga tanquinho e um visual bem legal.
- E você vai falar de novo que eu sou gordinho e sou muito certinho.
- Se sabe o que eu vou falar, por que você não muda?
- Eu não quero mudar, eu estou bem do jeito que sou.
- Sério? Se eu fosse você, eu cometeria suicídio.
Barry apenas olha para Bob e finge estar rindo, quando está querendo na verdade socá-lo.
No refeitório, enquanto Barry está pegando a comida, Megan vai até a mesa onde Bob, Gary e Eddie estão:
- Ei, vocês vão ter algo pra fazer sexta à noite.
- Depende... – diz Bob com um sorriso sacana – Vai ser na sua casa ou na minha?
- Cala a boca, Bob. Escute, eu vou dar uma festa sexta à noite e já avisei alguns alunos. Topam ir?
- Já ouviu falar em convidar pelo Facebook? – pergunta Gary.
- Ah sim, uma festa com menores de idade onde vai ter bebida alcóolica... É uma ótima ideia anunciar no Facebook. – diz Megan em tom sarcástico.
- Onde é o endereço? – pergunta Eddie.
- Eu passo para vocês depois. Mas vocês topam em ir?
- Claro. – diz Bob.
- Agora me dão licença porque já falei demais com vocês.
Enquanto Megan vai embora, Bob comenta sobre uma ideia que acabou de surgir em sua mente:
- Aí, que tal se a gente chamasse o Barry pra ir junto?
- Tá de onda? – pergunta Gary.
- Nunca que ele vai ir. – diz Eddie – O cara só falta virar um padre.
- Mas não seria engraçado um cara como o Barry em uma festa? Um cara certinho como ele numa festa vai dar merda na certa.
- Vamos fazer isso. – diz Eddie animado.
Barry então chega à mesa e se senta com eles:
- Barry, você já esteve em uma festa. – pergunta Gary.
- Não, por quê?
- A gente ficou sabendo que a Megan vai dar uma festa na sexta... Com bebida... Muita gostosa.
- Mas como ela vai dar essa festa? Digo, se for uma festa na escala do que eu estou pensando, seria ilegal, a gente é menor de idade ainda.
- Vai começar. – diz Eddie.
- Barry é a sua chance. Você deve ser o único virgem daqui, já tá na hora do seu bilau explorar os horizontes.
- Mas e se a polícia aparecer?
- Ai, caralho! – diz Bob aborrecido – Estamos falando de sexo e você tá preocupado com a polícia?
- Digamos que eu vá a essa festa com vocês. Provavelmente vai ser em um ambiente onde a gente não deveria estar, vai ter bebida alcóolica, adolescentes fazendo sexo e provavelmente drogas.
- Uma maconha provavelmente. – diz Eddie.
- E vocês acham que não há a possibilidade da polícia aparecer?
- Vai morrer virgem. – diz Gary cantarolando.
- Isso aqui não é o American Pie.
- Barry, você tem que ter uma visão maior das coisas. Você é muito careta.
- Eu não sou careta.
- Então vem com a gente.
- Eu não quero ir.

Bob, Gary e Eddie olham entre si e depois olham para Barry, e imitam uma galinha como forma de chamar Barry de covarde.
Na saída da escola, Barry se encontra com Evelyn e a acompanha:
- E então, como foi na prova? – pergunta ele.
- Fui bem, obrigada. – diz ela – Obrigada de verdade pela ajuda.
- Você é minha melhor amiga, só fazendo o meu trabalho. – diz ele rindo.
- Então você está fazendo um ótimo trabalho. – diz ela rindo – Ah, deixa eu te contar uma coisa ótima.
- O que?
- Lembra-se do Dylan? Eu já te falei sobre ele, não falei?
- Ah, sim. – diz Barry sentindo seu coração acelerar de desespero e torcendo para que não seja um garoto que Evelyn tenha começado um namoro com ele – O cara que é mais velho que você.
- E daí? Caras mais velhos são mais experientes.
- Mas você conhece bem esse cara?
- Estamos nos conhecendo ainda.
- E se ele for ciumento, um ciúme doentio? Geralmente caras mais velhos são mais propensos a isso.
- Barry, você tá exagerando.
- Se você pesquisar os casos de caras que mataram suas namoradas, a grande maioria eram caras mais velhos.
- Ai que horror! Você tem que parar de ver tanto noticiário.
- Só estou preocupado com a sua segurança.
- Obrigada, meu querido amigo – diz ela apertando a bochecha direita dele com a mão esquerda dela – Mas o Dylan não é assim, ele é um fofo. Acho que é o cara mais lindo que eu já conheci.
- Ele tem cara de veado.
- Claro que não. Ele é lindo e é gentil, é um pacote completo do que uma garota quer. Acho que ele quer namorar comigo.
- O que?! – pergunta ele gritando.
- Calma, não precisa gritar.
- Mas vocês mal se conhecem.
- Mas é essa a graça, a gente ir descobrindo as novidades.
- Não acha melhor esperar mais um pouco, até ter certeza absoluta.
- Se não der certo a gente termina, simples. Mas acredito que se a gente namorar vai dar certo. Ele tem algo especial... E ele vai me levar no show da Alana Memphis que vai ter mês que vem. – diz ela pulando de alegria.
- A cria do Disney Channel.
- As músicas são legais.
- São? – pergunta Barry com desdém.
- Alguma coisa contra?
- As letras não tem nada a ver, não tem sentimento, não tem lógica.
- Ele sabe do que uma garota gosta.
- Uau, bom pra ele.
- Espera um pouco. – ela para de andar.
- O que? – pergunta Barry tendo parado de andar também.
- Ali – ela aponta o dedo para Dylan – É o Dylan. Vem cá, vem conhecer ele.
- Não, não precisa.
- Vem cá. – diz ela pegando ele pelo braço.
Ela o leva até o Dylan:
- Oi. – diz Dylan sorridente
- Oi Dylan.
- Quem é o seu amigo aí?
- Ah, esse é o meu amigo Barry.
- Ah, Barry. E aí, como vai?
- Bem, obrigado. – responde Barry.
- Eu tava indo buscar você. – diz Dylan.
- Sério? – diz Evelyn sorridente.
- Quer uma carona para o trabalho?
- Mas é claro! Eu não disse que ele era especial, Barry.
- Supimpa. – diz Barry sem graça.
- O que? – pergunta Dylan.
- Sabe... Supimpa! É uma expressão usada na década de 1950 pra dizer “que legal”.
- Ah... – diz Dylan sem entender nada – Bem, vamos indo. Meu carro está estacionado aqui perto.
- Está bem. Tchau Barry.
- Tchau. – diz Barry sabendo que qualquer chance que poderia ter com Evelyn agora é inexistente.
Em casa, Barry sente que seu corpo está muito quente e decide verificar a temperatura, vendo que agora está com 39 graus. Ele avisa a sua mãe, após ela chegar a casa, e ela vai com ele de ônibus até o hospital New Life. Localizado em Brooklyn Heights, o New Life foi fundado em uma parceria entre a Presidente Ford e o empresário e cientista Nicholas Connery. Embora seja considerado um dos melhores hospitais públicos do mundo, houve suspeitas de desvio de dinheiro, mas nada foi provado. Após entrarem no hospital, eles aguardam na sala de espera um pouco até o médico finalmente chegar:
- Barry Granger? – pergunta o médico.
- Sou eu. – responde Barry.
Barry acompanha o médico até seu consultório e ele se senta em uma maca enquanto o médico mede sua temperatura, colocando o termômetro embaixo de sua língua. Após o procedimento, ele verifica o termômetro:
- Sua temperatura está bem alta de fato. Tem certeza que não está se sentindo mal? – pergunta o médico
- Tenho. – responde Barry.
Enquanto ambos conversam, um homem caminha perto do consultório do médico que está examinando Barry. Alto, cabelos castanhos escuros com fios brancos nas têmporas, barba, rosto fino e trajando um terno e sapatos pretos. Seu nome é Nicholas Connery e ele ó dono do hospital. Ele abre a porta aberta e vê os dois:
- Estou interrompendo, doutor? – pergunta Nicholas com seu sotaque britânico.
- Sr. Connery? De maneira alguma. – responde o médico.
- Quem é este rapaz? – pergunta ele entrando no consultório.
- Você é Nicholas Connery? – pergunta Barry espantado.
- O próprio. E você, meu jovem?
- Barry Granger. – diz ele estendendo a mão para cumprimentá-lo – Eu li um pouco sobre as pesquisas que você fez, são fantásticas.
- É mesmo? Quantos anos você tem?
- 17.
- Pretende ser cientista.
- Para ser sincero, eu ainda não decidi o que vou fazer depois que acabar o ensino médio.
- É raro um garoto da sua idade se interessar por assuntos científicos.
- Eu não sou exatamente um garoto normal. – diz ele rindo.
- Sei bem como é. Muito prazer, Sr. Granger.
- O prazer é todo meu.
- Posso falar com o senhor?
- Claro. – o médico volta sua atenção para Barry - Espere um pouco, sim?
- Tá.
Eles vão para o corredor:
- E então, o que o garoto tem?
- Ele afirma passar bem. E de fato, não parece estar doente, mas... – o médico olha para Barry novamente e em seguida volta o olhar para Nicholas – Eu nunca vi algo assim, a temperatura corporal está extremamente alta e ele aparenta estar saudável.
- Retire o sangue dele e envie para o laboratório, assim eu e minha equipe iremos analisar. Pode liberar o garoto.
- Não é melhor interná-lo?
- O garoto está bem por ora. Apenas lhe forneça um remédio para baixar a febre.
- Está bem.
Barry é liberado e volta para a sala de espera para se encontrar com sua mãe, que está ao telefone:
- Sim... Tá, tudo bem, eu vou com ele para casa... Ok, beijo, tchau.
- Quem era?
- Seu pai. Ele vai estar na cobertura de imprensa de um evento.
Nicholas entra em seu carro, que está no estacionamento subterrâneo, e sai do hospital, se dirigindo para a convenção da Daniel Expo. O lugar luxuoso está recheado de exposições acadêmicas e artísticas, tanto quanto cheio de jornalistas que estão se dirigindo para lugares reservados. O pai de Barry se senta com alguns colegas em uma fileira de cadeiras reservadas. Todos olham para o palco. As luzes se acendem e as cortinas se abrem revelando Nicholas Connery e uma amiga sua de longa data: Cassidy Moore. Estatura mediana, olhos e cabelos escuros, trajando uma blusa, saia e sapatos de salto pretos. Atrás deles há tela com imagem de pessoas sorrindo. Uma das pessoas que estavam organizando o palco dá a Nicholas o microfone:
- Boa noite a todos. A 6ª edição da Daniel Expo começou há uma semana. Essas convenções acadêmicas são importantes por mostrarem o que pessoas que aos olhos do mundo são consideradas comuns têm a oferecer, seja a nação, o credo ou a cor. E agradeço pela oportunidade de estar aqui mostrando finalmente a conclusão de um trabalho que não foi iniciado por mim, mas sim por outras pessoas no passado graças às pesquisas baseadas em células tronco. Sabe, o que vou dizer agora vocês podem interpretar como sendo apenas um chamariz para as eleições, mas tenho muito que agradecer para a Presidente Ford, pois se não fosse ela ter, além de ter fortalecido ainda mais as relações com nossas nações aliadas, ter fortalecido as relações com as nações do oriente, o que para muitos, talvez para todos, parecesse ser impossível, contribuiu e muito para que cientistas e médicos do mundo todo se unissem em favor de uma causa. Esta causa era uma pesquisa na qual minha amiga de longa data Cassidy Moore, notável física, bióloga e geneticista, e eu que como vocês já sabem eu sou o diretor de um dos melhores hospitais do mundo e o melhor da América, e isso sendo um hospital público – a plateia ri – Não, perdoem-me – diz Nicholas rindo junto com a plateia – não quis passar a impressão de arrogância. Mas voltando ao que eu estava falando, a pesquisa que estivemos supervisionando há seis anos, com dedicação e união, finalmente chegou ao fim. Agora se me permitem, queria passar a palavra para minha amiga Cassidy.
Após passar o microfone para Cassidy, a plateia aplaude:
- Boa noite. – diz ela sorrindo - Como Nicholas frisou bem em suas palavras, a união que tivemos entre médicos e cientistas do mundo todo foi de grande ajuda. O mundo não é perfeito, e há imperfeições que são necessárias, mas não todas. Algumas pessoas dizem que a ciência é o maior mal da humanidade, mas não é a ciência em si que causa sofrimento, mas sim o uso dela. A ciência serve para aumentarmos os nossos horizontes, e quando alguém faz um mau uso dela, está deturpando a ciência. Hoje, diante de vocês, temos a prova de que a ciência, se usada para algo correto, que beneficia a todos, ela garante bons frutos. O Projeto Prometeu foi iniciado há seis anos com um objetivo, semelhante ao que o Deus da mitologia grega fez. Claro que todos sabem que Prometeu deu o fogo para a humanidade. Como ele, nós quisermos dar algo para a humanidade também. Uma chance de vida, uma cura. Graças ao Projeto Prometeu finalmente temos a cura definitiva para o câncer.
Todos aplaudem de pé e Cassidy passa o microfone para Nicholas:
- Que bom que todos se alegraram com a notícia. – diz ele em tom animado – Foi uma tarefa árdua, mas que agora está concluída. É claro que a partir da fórmula que obtivemos, pretendemos usá-la para outras doenças incuráveis. Temos o poder para erradicar o mundo das doenças. Mas antes de aumentarmos os nossos horizontes, gostaria de demonstrar como esse projeto teve êxito... Bom, testamos em um paciente que luta contra o câncer de pulmão a sete anos. – Cassidy e Nicholas se afastam para que as pessoas possam olhar para a tela – Aqui vocês podem vê-lo – Nicholas aponta para tela que mostra a foto do tal paciente, em estado debilitado – Como vocês podem ver ele já está bem abatido. Nós encontramos esse paciente ano passado e após ele aceitar a se sujeitar ao experimento, demos uma dose intravenosa da fórmula que criamos. Após uma dose semanal durante um mês, bem... – surge outra foto do paciente, dessa vez visivelmente saudável – Graça aos avanços da ciência, ele está livre da doença. E eu gostaria de acrescentar também que em dentro de dois meses, o tratamento será disponibilizado para todos a um baixo preço. Então comemorem, pois uma nova era se inicia.
As pessoas continuam aplaudindo e os jornalistas, em meios aos flashes das câmeras, se aglomeram para tentar entrevistar a dupla.
Mais tarde, os dois estão na cobertura do prédio onde Nicholas mora. Ambos estão sentados no sofá, com Nicholas enchendo o copo com uísque:
- A apresentação de hoje foi maravilhosa. Parece que nossos nomes estarão garantidos no Prêmio Nobel. – diz Nicholas, demonstrando orgulho em sua voz.
- Não acho que eles comemorariam se soubessem das pessoas que morreram durante os testes. – diz Cassidy, com pesar em seu rosto.
- Do jeito que a Ford manipula toda a população, fazendo com que a nação americana e todo o mundo a vejam como heroína, ninguém vai descobrir nossos deslizes.
- Como se isso fosse grande coisa. Somos deturpadores da ciência.
- Cassidy, por que faz isso consigo mesma?
- Conseguimos algo fantástico, mas a que custo?
- Este é o preço para mudar o mundo. Nós estamos moldando a história, estamos construindo o nosso legado.
- Espero que esse legado tenha algum significado no futuro.
- E terá minha cara. Terá sim.
- E então, qual o próximo passo?
- Vamos realizar estudos com pacientes com Alzheimer primeiro, e então vamos pesquisar outras doenças incuráveis. Talvez demore bastante, considerando os efeitos colaterais que as cobaias anteriores tiveram, mas já estamos a um passo adiante.
- Cobaias que eram pessoas.
- Ciência requer sacrifícios. Você não pode ficar feliz pelo que está acontecendo?
- Eu estou orgulhosa de ter feito algo grandioso, mas tenho vergonha do que fiz para obter isso. E quando você fala em estarmos moldando a história, não sei se isso seria para melhor, especialmente se considerarmos o Projeto Perfectus.
 - Sabe... – diz ele colocando o copo em cima da mesa – Que bom que você mencionou o projeto. Acompanhe-me.
Os dois se dirigem para a sala secreta. Ao chegarem lá, Nicholas põe sua mão sobre o painel, fixado na parede, que examina suas digitais e abre a porta. A sala tem um computador gigante com painéis virtuais contendo informações sobre os projetos que Nicholas esteve envolvido. Ele acessa uma pasta intitulada P-1:
- Foi aí que você guardou as informações do Projeto Perfectus? – pergunta Cassidy.
- Sim. – responde Nicholas – O garoto esteve aqui mais cedo. Segundo o médico que o atendeu o garoto ele estava com a temperatura corporal alta, mas estava se sentindo bem. Eu fiz uma comparação com todos os exames de sangue que ele fez, incluindo o de hoje, que felizmente a minha competente equipe concluiu. Se você reparar bem – ele aponta o painel que mostra alguns exames de sangue e suas células, com alguns contendo células energizadas – As células estão mais ativas.
- Ele vai manifestar os sintomas logo. – diz Cassidy.
- Sim. – diz Nicholas, quase gritando de alegria – Tudo o que ele for capaz de fazer, os poderes que ele terá... Mudará o mundo todo.
- E é disso que tenho medo.
Eles olham para o painel que agora apresenta a foto de Barry.


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