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sábado, 16 de setembro de 2017

Perfectus III - Capítulo 1: O julgamento de Barry Granger

2026

6 de janeiro de 2026, Nova York. Já se passaram alguns meses desde que Barry Granger foi obrigado a se revelar ao mundo como sendo o Voador. Ele esteve esses meses todos preso na Área 72, na mesma cela em que Karen Witwer esteve. Enquanto ele esteve preso, as coisas não foram boas para sua família. Desde sua revelação e sua prisão, a família de Barry tem sido bombardeada por todos os lados por fotógrafos e jornalistas. Seu pai perdeu o emprego e eles têm sido alvos de grupos que odeiam o Voador.
Mas algo mais trágico aconteceu. Na noite passada, Timothy e Margareth Granger foram atacados por membros da Antifa. Raven, que acabou de chegar do aeroporto, pega um táxi e se dirige para o hospital. Ao chegar lá, ela é abordada por alguns jornalistas, se irritando com as perguntas ridículas que eles fazem e os mandando se foder. Ela vai até a recepção, diz o nome dela e logo um médico vem e conversa com ela. Ele informa que Margareth está em estado estável, mas Timothy não sobreviveu aos ferimentos.
Na Área 72, Alan, trajando o seu uniforme vermelho e azul, vai até a cela onde Barry está. Ele abre a cela e olha para Barry, com o cabelo mais curto e visivelmente mais magro:
- Você tá diferente. – diz Alan.
- O que você veio fazer aqui? – pergunta Barry com uma expressão e tom de voz frios – Já é o dia do meu julgamento?
- Não, só na semana que vem.
- Então não temos nada para conversar.
- Eu vim te dar uma notícia, uma notícia ruim.
- Mais uma para a coleção.
- Seus pais foram atacados ontem à noite por membros do Antifa.
- O que? – pergunta com em tom e expressão de preocupação – Eles estão bem?
- Sua mãe está estável, mas seu pai morreu.
- Deus... – ele começa a ficar ofegante, pondo as mãos no rosto e começando a chorar – Eu tenho que ir ver a minha mãe.
- Não, você só sairá daqui quando for o julgamento.
- Por favor. Desde que você me colocou eu não te pedi nada. Só isso que eu te peço.
- Não. Você é um criminoso perigoso, Barry. Tem que ficar aqui para a segurança de todos, incluindo da sua própria família.
- Seu filho da puta!
Barry avança para cima de Alan, tentando lhe dar um soco, mas Alan apenas o esbofeteia, jogando-o no chão:
- Certas pessoas não aprendem, não é? Bom te ver, Barry. Até o dia do julgamento.
Quinta feira da semana seguinte. A atenção do mundo todo está em Barry. Hoje é o seu julgamento pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio, lesão corporal e crime de ódio, isso se não adicionaram mais acusações. Enquanto aguarda o início do julgamento, Barry está sentado em uma sala, olhando para janela, vendo todo o alvoroço que as pessoas lá embaixo estão fazendo. Ele está trajando um terno com uma camisa branca e uma gravata azul com listras pretas.
O julgamento será transmitido ao vivo para a televisão e para a internet. A irmã de Barry está entre a multidão. Alguns outrora alunos da Escola Jackson apareceram, além de Alan. O advogado de Barry será Hans Schneider, pai de Megan, que relutantemente aceitou ser o advogado de Barry, pois sua filha havia insistido muito nisso.
Barry se levanta e continua observando as pessoas lá embaixo com seus cartazes protestando a favor da condenação dele. Ele tira os olhos da janela e pega um copo, o enche de água e o bebe. Assim que joga o copo fora, Alan, trajando um terno claro, gravata preta e sapatos marrons, se aproxima de Barry:
- Se sentindo bem para este grande dia? – pergunta Alan, com o sorriso mais sacana que alguém poderia ter.
- Por que fazer esse julgamento?
- É o seu direito.
- Acha que eu não sei que você ou a Ford vão dar um jeito de me colocar como sendo culpado pelos crimes?
- A gente poderia, mas isso são eles que irão decidir. Nossa... – ele começa a rir.
- Tá rindo do que?
- Eles. – ele caminha até a janela e observa a multidão – Eles realmente te odeiam. Acho que se você soubesse – ele volta o seu olhar para Barry – que tentar me matar causaria todo esse alvoroço teria pensado duas vezes antes de ter feito isso. Quer dizer, a sua situação já não estava lá muito boa, mas ter tentado me matar foi o que piorou tudo. Por outro lado se não fosse por isso, eu não teria recebido o seu sangue na transfusão e não teria todos esses merdas aos meus pés. Deve doer ter eles me venerando. Foi por isso que você quis se tornar um herói, para ter todos aos seus pés?
- Não. Eu tentei ser um herói porque eu quis fazer a coisa certa. Não esperava ter reconhecimento por causa do eu tinha feito, de tentar matar você.
- Engraçado, naquela noite você poderia ter me matado, mas não o fez. Eu lembro muito bem, você estava vindo como um animal selvagem. Por que me deixou viver? Arregou? – pergunta ele rindo.
- Eu queria te matar naquela noite, mas quando eu tava prestes a te esmagar com o seu carro eu vi que não deveria fazer aquilo.
- Nossa Granger, você tem a mente tão pequena. É uma pena não ter uma máquina no tempo, aposto que iria querer terminar o trabalho. Eu tenho os seus poderes, as pessoas me amam e você está aqui sendo odiado por eles. Eu matei pessoas inocentes e fiz o mundo todo acreditar que foi você. É incrível como sempre vou estar à sua frente, como sempre serei o melhor.
Alan encara Barry, esperando alguma reação, mas o jovem apenas o olha com uma expressão fria, embora deseje quebrar o pescoço de Alan ali mesmo:
- Bem... – diz Alan – Vejo você no julgamento.
Após Alan deixar a sala, Hans entra para falar com ele:
- Vamos retomar o plano para a defesa, Barry?
- Mentir?
- Você quer ter uma chance de pegar uma pena menor?
- Não importa o que eu faça, eu vou ser considerado culpado.
- Eu não fui para o meio do nada visitar você e assinar um acordo dizendo que eu não poderia em hipótese alguma revelar a localização daquele lugar para não fazer absolutamente nada. Eu estou aqui para fazer o meu trabalho.
- Eu sei que está.
- Então quando te perguntarem sobre a Karen Witwer você vai usar o argumento de que ela estava te controlando mentalmente.
- Está bem.
- Escute, eu sinto que não deveria perguntar, mas tem algo...
- Sr. Schneider, para o bem de você e da sua família, quanto menos você souber, melhor.
- Está bem. A propósito, sinto muito pelo que houve com seus pais.
- Agradeço.
Meia hora depois o julgamento começa, com Barry e Hans sentados no lado do réu. O juiz declara o número do caso e as acusações de homicídio, tentativa de homicídio, lesão corporal e crime de ódio. O juiz chama o promotor Harvey Murdock, que fala com o júri:
- Senhoras e senhores, hoje nós estamos aqui para dar a punição correta para este jovem que carrega sangue em suas mãos. Este julgamento servirá para esclarecer os fatos do quão Bartholomew Grinstein Granger é perigoso para a nossa sociedade. Os fatos falarão por si só, sem mais meritíssimo.
- Sr. Schneider, sua vez.
- Grato. – diz Hans se levantando da cadeira e caminhando até o júri – Senhoras e senhores... Apesar das palavras exaltadas do meu colega, vamos agir de forma racional, não sejamos tomados pela emoção, vamos analisar os fatos de forma correta. Bartholomew Grinstein Granger pode ter cometido alguns erros, de fato os cometeu, mas isso realmente quer dizer que ele seja um monstro? Pois afinal, já vimos provas de que ele não o seja. Este é um rapaz que já salvou inúmeras vidas e abriu mão da própria identidade para fazer isso. Nem sabemos se foi ele mesmo quem cometeu aqueles assassinatos. Sem mais meritíssimo.
- A acusação está pronta para chamar sua primeira testemunha? – pergunta o juiz.
- Está sim, meritíssimo. – diz Harvey – Eu gostaria de chamar o psicólogo da Escola Jackson, Damon Maguire.
Damon caminha até a frente do tribunal, faz o juramento e se senta, ficando ao lado do juiz e de frente para todos:
- Sr. Maguire, há quanto tempo o senhor é psicólogo?
- Há 15 anos.
- E há quanto tempo trabalha na Jackson?
- Há sete anos.
- Diga-me, Sr. Maguire, quantas vezes o senhor teve consulta com Barry Granger?
- Apenas três vezes.
- Uma registrada em 2023 e as outras duas registradas em 2024. Correto?
- Sim.
- E em todas elas foi por reclamação do diretor da escola devido a Granger ter agredido Alan Garrett?
- Não. As duas primeiras foram, mas a terceira ele veio por conta própria.
- Como descreveria o comportamento de Barry Granger?
- Barry é um rapaz que em muitas vezes se comportava para agradar aos outros, ele buscava a aprovação alheia e se reprime no processo.
- Se reprime... Certo. O fato de um indivíduo se reprimir é algo ruim, certo? Digo, pode gerar grande frustração e poder fazer com que o indivíduo possa se tornar uma bomba relógio, correto?
- Sim, pode.
- Bom... – ele se vira e olha para Barry – isso quer dizer que temos uma bomba relógio bem aqui entre nós.
- Protesto! – grita Hans.
- Deferido. – diz o juiz – Peço que se atente às suas palavras, Murdock.
- Perdão meritíssimo. Sem mais perguntas.
- Schneider? – pergunta o juiz.
- A defesa não tem perguntas. – responde Hans.
- Próxima testemunha. – diz o juiz.
- Gostaria de chamar a testemunha Melanie Johnson. – diz Harvey.
Melanie, a namorada de Alan, caminha até à frente do tribunal:
- Srta. Johnson... – diz Harvey – Como descreveria Barry Granger?
- Protesto meritíssimo. – diz Hans – Ele vai perguntar para todas as testemunhas descreverem Granger como se isso aqui fosse um programa de auditório?
O burburinho começa:
- Ordem! Ordem! – exclama o juiz – Deferido. Murdock seja mais específico.
- Eu serei meritíssimo. – diz Harvey – Permita-me prosseguir que eu mostrarei aonde quero chegar.
- Faça-o. – diz o juiz – Responda a pergunta Srta. Johnson.
- Sim, senhor. – responde Melanie – Eu descreveria Barry Granger como um fracassado doentio.
- Protesto! – exclama Hans.
O burburinho começa novamente:
- Ordem! – diz o juiz – Peço que seja mais polida em seus comentários.
- Sim, senhor. Desculpe-me.
- Srta. Johnson – prossegue Harvey - por quanto tempo você e Granger estudaram juntos?
- Quatro anos.
- É muito tempo. Granger sempre teve um comportamento agressivo, violento?
- Muitas vezes.
- Em todas as situações em que isso ocorreu... Isso envolveu Alan Garrett?
- Sim.
- Por quê?
- Barry sempre teve inveja de Alan.
- É verdade que em uma das brigas relatadas, sendo que – ele se vira para o júri – seria o que o levou a se consultar com Sr. Maguire, foi que ele tentou estrangular Alan?
- Sim.
- O que aconteceu na noite em que você e Alan foram atacados por Barry?
- Foi assustador, foi como estar em um filme de terror. Eu e Alan estávamos no carro nos beijando e então ele apareceu do nada, usando uma blusa com capuz. Arrancou-me do carro e me jogou no asfalto. Eu fiquei com os braços e as pernas machucados, mas o que ele fez com Alan... – seus olhos começaram a se encher de lágrimas - Foi pior. Ele o espancou sem parar. Alan implorava para ele parar, mas ele não deu atenção e então... Ele pegou o carro com as próprias mãos e quase o jogou em cima dele, mas desistiu.
- Bem meritíssimo, sem mais perguntas. – diz Harvey sorridente – A testemunha é sua, Schneider.
- Srta. Johnson – diz Hans – A senhora mencionou que muitas das vezes em que demonstrou um comportamento violento, envolveu Alan, correto?
- Sim.
- E nessas vezes, Barry teria agredido Alan sem razão alguma?
- Sim.
- Estranho, porque é de conhecimento de seus colegas, e isso pode até ser confirmado com o Sr. Maguire, que Alan Garrett praticava bullying com Barry. Sendo que, na noite em que os poderes de Barry despertaram, fazendo-o com que acidentalmente matasse quatro homens que estavam espancando-o, Alan havia humilhado Barry, gravado o ato e colocado no Youtube. Não foi isso, Srta. Johnson?
- Bem...
- Responda a pergunta.
- Sim.
- Pois então, havia motivos para Barry ter desavenças com Alan Garrett. Mas obviamente, não estou justificando a agressão que o meu cliente cometeu contra ele. Sem mais perguntas meritíssimo.
- Há mais alguma testemunha? – pergunta o juiz.
- Sim, meritíssimo. – responde Harvey – Gostaria de chamar Alan Garrett.
Alan anda, exacerbando confiança, até a frente do tribunal:
- Sr. Garrett, há quanto tempo você e Barry Granger se conhecem?
- Há uns quatro anos.
- A relação entre vocês dois sempre foi conturbada?
- Pode-se dizer que sim.
- Por quê?
- Nós estávamos quase sempre brigando.
- O episódio citado pelo meu colega, o Dr. Schneider, realmente aconteceu?
- Sim. Eu era um rapaz egoísta e meu passatempo preferido era humilhar Barry, admito isso.
- O que pode nos dizer sobre a noite em que ele tentou te assassinar?
- Com toda a certeza, aquela foi... – ele finge tristeza ao se lembrar do ocorrido – A noite mais aterrorizante da minha vida. Ele me agrediu com tanta intensidade que eu cheguei a pensar que fosse morrer.
- Mas está aqui diante de nós.
- Sim.
- Por quê?
- Como todos sabem, Hong Chan desenvolveu uma fórmula que transforma um ser humano comum em um super-humano. A Presidente Ford quis utilizar isso para algo bom, e eles a usaram em mim a fim de salvar minha vida. E aqui estou hoje.
- Você já sabia que Barry Granger era o Voador?
- Não, nenhum de nós tinha ideia de que Barry era o Voador. Depois que eu recebi os poderes eu investiguei, mas obviamente não fiz um bom trabalho porque o Voador estava bem do meu lado.
- Você acredita que Barry tenha assassinado aquelas pessoas?
- Sim. Em muitas vezes o Barry teve uma atitude violenta e a gente viu as gravações. Sinceramente eu acredito que ele tenha sim feito isso, mas sei lá, vai que ele tenha uma demência. Talvez precise de ajuda psiquiátrica severa.
- Sem mais perguntas meritíssimo.
- Quer fazer perguntas à testemunha, Schneider? – pergunta o juiz.
- Não meritíssimo.
- A acusação tem mais alguma testemunha? – pergunta o juiz.
- Não, meritíssimo.
- Mas a defesa tem. – diz Hans se levantando.
- Tem? – pergunta Barry.
- Sim.
- E quem seria a testemunha?
- Eu gostaria de chamar... – diz Hans caminhando de volta à frente do tribunal – Evelyn Tyler.
O burburinho recomeça e todos olham Evelyn entrar. A jovem está trajando um vestido claro e uma tiara cor vinho. À medida que ela vai caminhando até à frente, à medida que ela vai se aproximando, Barry sente coração bater forte, afinal faz meses que ele não vê ela. A jovem também sente seu coração disparar, por rever Barry depois de meses e por todos ali estarem olhando para ela.
Assim que ela chega à frente do tribunal, Hans caminha até ela:
- Srta. Tyler... Poderia nos dizer a quanto tempo conhece Barry Granger?
- Há quatro anos.
- Como o descreveria?
- Barry é um das melhores pessoas que alguém pode conhecer. – ela diz isso olhando para ele, e desta vez o olhar dela é de felicidade e não de medo como da última vez em que se viram.
- E quanto ao comportamento agressivo de Barry?
- Barry chegou a agir de forma violenta, mas no geral ele não fazia nada para prejudicar ninguém. Ele sempre procurava ajudar os outros, mesmo que fossem aqueles que não mereciam a ajuda dele.
- Ele chegou a ter um comportamento violento com você? Tentou te agredir?
- Não. Barry sempre foi bom comigo.
- O meu colega o chamou de bomba relógio. Na sua concepção, Srta. Tyler, usar este termo para Barry é correto?
- Eu sou a melhor amiga dele, eu o conheço bem e posso dizer com toda a certeza que apesar de suas falhas, Barry não é um monstro e merece uma chance de provar isso. Ele salvou muita gente, ele me salvou da Karen, ele revelou a identidade para me salvar, se sacrificou. Ele é um super-herói. – ela olha novamente para Barry, que se mostra bem feliz com o que ela disse.
- Sem mais perguntas meritíssimo.
- A acusação tem perguntas?
- Não, meritíssimo.
Evelyn se retira e se junta à multidão:
- A acusação gostaria de chamar o réu, meritíssimo. – diz Harvey.
- Aproxime-se Sr. Granger.
O coração de Barry está batendo mais rápido ainda. Assim que se senta e olha para a multidão e para o júri, ele sente como se pudesse ver o ódio que muitos ali sentem por ele. Harvey fica posicionado de frente para ele e os dois se encaram:
- Sr. Granger, como ganhou esses poderes? Como se tornou o Voador.
- Bem... – antes de falar ele se lembra de quando o Agente Jones e Alan disseram a ele o que ele deveria dizer caso essa pergunta fosse feita, e então ele responde, seguindo a versão que eles forneceram a ele – Hong Chan havia injetado a Perfectus em mim quando eu era um recém-nascido. Depois que os meus poderes despertaram ele veio me procurar e explicou a história toda. Achei que fosse loucura, mas depois ele me mostrou provas, documentos referentes ao Projeto Perfectus que o governo confiscou depois. Ele queria que eu me juntasse a ele, mas eu não quis. Então ele me mandou aqueles robôs atrás de mim e tentou matar a Presidente Ford em Tokyo. E antes dessa luta em Tokyo, eu estava em uma mercearia e presenciei um assassinato, e por eu não ter podido impedir esse assassinato isso me fez ver que eu deveria ter usado os meus poderes para ajudar as pessoas.
- Por que Hong Chan queria que você se juntasse a ele?
- Porque ele era como um cientista maluco, igual ao de uma história de ficção científica.
- E por que você não quis?
- Porque eu não queria participar dos planos dele de... Destruição.
- Sr. Granger, o senhor matou aqueles homens quando descobriu que tinha poderes?
- Não.
- Mas eles estavam agredindo você, não estavam?
- Sim, eles estavam me espancando, mas eu não os matei.
- Então como explica as mortes deles?
- Eu matei, mas...
- Ah, então você admite. – diz ele interrompendo Barry.
- Mas foi um acidente!
- Assim como foi com Alan Garrett, quando o estrangulou? Ou quando o espancou covardemente?
- Não.
- Então você tentou matá-lo.
- Sim, eu tentei.
- E por quê? O que ele fez com você?
- Me humilhou.
- E isso, em sua mente, era motivo para matá-lo?
- Eu não queria matá-lo, apenas perdi o controle.
- Perdeu o controle. – diz Harvey, olhando para o júri, dando ênfase no “perdeu” – Então você não tem autocontrole.
- Não foi o que eu disse.
- Você disse que perdeu o controle.
- Naquela ocasião, sim, eu perdi.
- Não foi apenas naquela ocasião, Sr. Granger. Tenho provas – diz ele indo até a mesa e pegando documentos – de que você perdeu o controle outras vezes em suas atividades como Voador. Por exemplo, um mês após a sua luta com Hong Chan em Tokyo, houve cinco casos de menores de idade que apareceram com ferimentos graves, e esses ferimentos foram causados por você.
- Eles tinham agredido um idoso e uma mulher grávida.
- Sim. E sobre um aqui chamado Miles Dawson.
- Quem?
- Não se recorda?
- Não.
- Claro. Por que se recordaria? Miles era um jovem negro de 16 anos que foi brutalmente agredido por você enquanto ele realizava um assalto.
- Talvez porque ele fosse o assaltante.
- Então para você violência é resposta para tudo?
- Protesto! – exclama Hans.
- Negado. – diz o juiz – Responda a pergunta.
- Eu não disse que violência é resposta para tudo.
- Mas suas ações dizem. Há inúmeros relatos de pessoas que foram brutalmente agredidas por você, não só aqui nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Permita-me apresentar alguns vídeos excelência.
- À vontade.
Uma televisão é trazida até o tribunal com uma sequência de vídeos dos tais atos violentos cometidos por Barry como Voador, bem como os assassinatos cometidos por Alan quando ele fingiu ser o Voador. Harvey termina de exibir os vídeos e prossegue:
- Isso prova que o senhor é instável. Agora me diga por que não se entregou para as autoridades após ter tentado assassinar Alan Garrett? Afinal, essa seria a atitude correta de um herói.
- Porque eu não queria que as pessoas soubessem a meu respeito.
- E achou que poderia viver sem responder à justiça?
- Estou aqui agora, não é?
- Sim, está, mas só porque foi capturado. Sr. Granger, o que você pensa de todas as suas ações?
- Eu... – ele olha ao redor, olha para a sua irmã, olha para Evelyn e depois volta o olhar para Harvey – Eu posso não ter sido perfeito, não sou perfeito. Eu queria ser, mas não sou. Mas tudo o que eu fiz foi tentar ajudar.
- Ajudar? Ajudou a mãe de Benedict Vale, a mulher que foi morta na frente de seu filho? Você estava lá, não estava? Não era esse o assassinato que você não conseguiu impedir?
- Sim
- E quanto a outras pessoas que clamaram por ajuda e você nem apareceu?
- Eu não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, não tenho velocidade sobre-humana.
- E quanto àquelas pessoas inocentes na mesquita islâmica? Onde você estava, já que você diz que não os matou?
- Eu não lembro onde eu estava, e eu não matei aquelas pessoas.
- Todas as evidências apontam para você. – ele se vira para o júri – Todas elas. O Sr. Granger que convencer a todos de que não é uma ameaça, mas tudo o que vemos mostra o contrário. Cabe a vocês decidir se ele deve permanecer em nossa sociedade ou se deve permanecer afastado dela.
- Schneider? – pergunta o juiz.
- Obrigado, meritíssimo. – responde Hans – ele caminha até onde Barry está – Sr. Granger, sobre a ocorrência das mortes que aconteceram no ano passado e das quais você está sendo acusado, você realmente não se lembra?
- Não.
- Pode nos dizer onde estava na ocorrência dessas mortes?
- Até onde lembro eu estava em patrulha ou estava em casa já.
- Sr. Granger, há fotos e vídeos mostrando você acompanhado de Karen Witwer. Vocês dois atuaram juntos?
- Sim.
- Como se conheceram?
- Karen havia sido... – ele queria dizer que ela foi uma das vítimas de Ford, mas tem que mentir – uma vítima do Chan. Ela queria a minha ajuda e eu pensei que já que eu estava atuando como combatente do crime eu poderia ter uma parceira.
- Você sabia que ela era perigosa?
- Não.
- Quando soube que Karen era perigosa?
- Quando ela causou a destruição da Boate Foxx e do Hospital New Life.
- E por que ela ameaçou você, por que ela fez você revelar a sua identidade?
- Eu havia tentado detê-la quando eu soube o que ela tinha feito, e ela viu isso como traição. Então para se vingar ao invés de me matar ela me fez revelar ao mundo que eu sou o Voador como forma de me arruinar.
- Qual era a natureza dos poderes de Karen?
- Ela tinha poderes mentais. Conseguia se levitar, criar campos de força, lançar rajadas psíquicas, fazer as coisas se moverem, tudo isso com a mente dela.
- Ela podia controlar a mente das pessoas?
- Até onde eu saiba, não.
- No período em que as mortes que você supostamente causou no ano passado, ocorreram, ela estava com você, não é?
- Sim.
- Então – ele se vira e olha para o júri – se Karen Witwer tinha poderes mentais é bem possível que ela tenha controlado o meu cliente sem ele saber. Ela era uma jovem instável, então é bem possível que o meu cliente tenha cometido estes assassinatos por estar sendo controlado mentalmente por ela. Sem mais perguntas meritíssimo.
- Eu tenho. – diz Harvey.
- Prossiga. – diz o juiz.
- Sr. Granger então o senhor vai alegar que estava sendo controlado mentalmente?
- Faria sentido. Por mais que as imagens mostrem, eu não me lembro de estar ali, então como o meu advogado disse é bem possível.
- Sr. Granger, sabia que muitos daqueles que você julga ter detido eram negros.
- E daí?
- Apenas acho intrigante que alguém que julga querer ajudar a todos persiga apenas pessoas de uma determinada etnia.
- Protesto! – diz Hans.
- Negado. – diz o juiz – Prossiga Murdock.
- Como eu ia dizendo, muitos dos que você julga ter detido eram negros, jovens negros.
- Eu não sou racista.
- Não mesmo?
- Minha mãe é mulata.
- E quanto a muçulmanos? Em sua conta no Youtube é possível ver que você gosta de vídeos que condenam a religião e seus praticantes. Em seu perfil no Facebook, na sua lista de livros favoritos estão “Lei Sharia para Não Muçulmanos” e “A História de Maomé”, livros que condenam o islamismo. Ou vai negar isso?
- Não, mas isso não quer dizer que eu mataria alguém só por ser muçulmano.
- Mas você agrediu brutalmente indivíduos muçulmanos que supostamente eram terroristas.
- Porque eles eram terroristas.
- E você também apoiou, durante as eleições de 2024, Ryan Trevor, que entre suas propostas estava políticas excessivamente duras para imigrantes islâmicos. A mim – ele se vira e olha para o júri – parece que você matou aquelas pessoas na mesquita islâmica por puro ódio, porque você é um islamofóbico.
- Eu não sou. Eu não matei aquelas pessoas.
- Será? Você já matou antes, e por mais que queira mentir para todos aqui e para si mesmo, você é um assassino. Nada mais a declarar meritíssimo.
- Schneider? – pergunta o juiz.
- Nada, meritíssimo.
- O julgamento está em recesso. O júri voltará com o veredicto dentro de uma hora.
Barry sai do local e retorna para a sala em que estava antes do julgamento começar. Ele se senta e então Raven abre a porta e entra:
- Oi. – diz ela.
- Oi. – diz ele se levantando e indo abraçá-la – Você está bem?
- Pareço bem, cabeção?
- Não. E a mãe?
- Tá internada, mas está melhor. Eu vou ficar por aqui até ela melhorar e dependendo da situação vou levar ela para morar comigo em Los Angeles.
- Ótimo. Vai ser bom ela ficar com você. Eu sinto muito por tudo isso.
- Não é sua culpa. A culpa é deles.
- Mas eu estraguei tudo.
- O que você acha que vai acontecer agora?
- Eles vão me culpar. Esse julgamento já estava decidido antes mesmo de começar.
- Então conte a verdade, fale para todos ali o que está acontecendo.
- Não posso.
- Por quê? Você não tem nada a perder.
- Se eu contar, você e a mãe podem morrer. Não vou deixar vocês na linha de fogo.
- Já estamos Barry. Não importa o que você faça.
- Eu não vou arriscar.
- Acho que não vou fazer você mudar de ideia. Eu vou dar um telefonema, vou ver como a mãe está.
- Está bem.
Raven caminha até a porta, mas antes se virar e chama Barry:
- Sim? – pergunta ele.
- Você provavelmente vai ficar preso por um bom tempo, mas se um dia você conseguir se libertar... Mate estes filhos da puta!
- Eu irei. – diz ele esboçando um leve sorriso.
- Tchau, Barry. – diz ela, com a sensação de que esse será um adeus.
 Depois que ela sai, Barry volta a olhar a janela, vendo a multidão exaltada. Ele sente dedos suaves tocarem seu braço esquerdo e, ao se virar, vê Evelyn. Seu coração começa a bater forte. Ele tenta falar, mas as palavras não saem. Enquanto fica sem saber o que fazer vendo ela ali parada diante de seus olhos, a jovem o abraça. Os dois ficam abraçados ali por quase dois minutos. Há muito a que ser falado, mas aquele silêncio e a demonstração de afeto já demonstram a saudade que sentiam um pelo outro:
- Eu sinto muito pelo que aconteceu.
- É minha culpa, Evelyn. – diz ele após deixar de abraçá-la – Achei que nunca mais veria você. Como você está depois daquilo?
- Ainda tenho pesadelos, mas as consultas com o terapeuta têm ajudado.
- Está na faculdade?
- Estou, estou fazendo psicologia.
- Que ótimo. Fico feliz, de verdade, em ver que você está bem.
- Mas e você?
- Não se preocupe.
- Me escute, Barry, você vai sair dessa.
- Nós dois sabemos que não.
- Não desista.
- Olha aquelas pessoas lá fora, e o júri... Eles me odeiam. Se eles pudessem eles iriam me matar.
- Mas não desista, Barry. Você vai ter justiça. Pode não ser hoje, mas você vai ter.
O tempo de recesso se encerra. Eles retornam ao tribunal. Antes de Evelyn e Barry sentarem-se em seus respectivos lugares, ele a pega pela mãe direita com sua mão esquerda. Os dois se olham, esperando que um fale algo. Barry tenta dizer algo que queria há muito tempo dizer para Evelyn, mesmo que ela ainda esteja com Dylan, no entanto as palavras não saem e ele apenas dá um beijo no rosto dela.
Ele se senta ao lado de Hans e o juiz prossegue com o julgamento:
- O júri chegou a um veredicto?
Um dos jurados se levanta:
- Sim, meritíssimo.
- Pela acusação de tentativa de homicídio, como vocês declaram o réu?
- Pela acusação de tentativa de homicídio, nós declaramos o réu... Culpado!
- Pela acusação de lesão corporal, como vocês declaram o réu?
- Pela acusação de lesão corporal, nós declaramos o réu... Culpado!
- Pela acusação de crime de ódio, como vocês declaram o réu?
- Pela acusação de crime de ódio, nós declaramos o réu... Culpado!
- Pela acusação de homicídio, como vocês declaram o réu?
- Pela acusação de homicídio, nós declaramos o réu... Culpado!  

Muitos ali dentro aplaudem a decisão. Barry é algemado e escoltado por policiais para fora do tribunal. Raven e Evelyn o observam enquanto ele é levado e ele as olha de volta. Alan observa a situação toda. Novamente, ele venceu e Barry perdeu. Barry caminha até a viatura, em meio a flashes, perguntas, gritos e ovações. Ele entra na viatura e Evelyn corre até a rua, vendo o veículo se distanciar no horizonte.

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