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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 5: Darwin


Vinte anos depois, o homem que salvou Kyle e Celiny quando eles eram crianças está em pé diante dele. Ele estende a mão direita para ele e diz que é hora de os dois irem embora. Ele não tem para onde ir. Seu mundo acabou. Ele aperta a mão do homem, se levanta e o acompanha. Eles atravessam o portal que instantaneamente os levam para uma sofisticada sala de estar, quase que como se apenas tivessem aberto uma porta e atravessado de um cômodo para outro:
- Por favor, sente-se. – diz o homem indicando com a mão onde o sofá está.
- Onde estou?
- Minha casa. Quase isso, mas é a minha casa de qualquer forma. Sente-se, deve estar cansado depois de tudo que passou.
Kyle se senta, e o homem dá para ele roupas para se vestir:
- Obrigado. – diz Kyle.
- Por nada. Quer beber algo?
- Não. Quero saber quem você é.
- Imagino que você tenha muitas perguntas. Pode me chamar de Darwin.
- Como aquele homem, Charles Darwin?
- De certa forma. – diz ele rindo – Bom ver que você não é nenhum ignorante, Kyle.
- Como você sabe o meu nome?
- Eu senti sua presença quando nos encontramos 20 anos atrás, o que permitiu saber o seu nome.
- Como assim? Nós nunca nos vimos antes.
- Fui eu que salvei você e Celiny, não lembra?
- Mas é claro que me lembro!
- Sim. E quanto a sentir sua presença, a família tem essa habilidade.
- Família? Você é meu parente?
- Sim, bem distante, devo dizer. Somos os Filhos do Anjo Caído.
- O que?
- Anjo Caído, Lúcifer, Satanás. Nunca ouviu a respeito de nossa espécie?
- Eu... – ele então se lembra de quando Celiny mencionou a respeito dias atrás – Eu já ouvi. Mas pensei que estivessem extintos.
- Somo os últimos, na verdade. O restante está morto, incluindo sua mãe.
- O que sabe sobre minha mãe? – diz ele se levantando e encarando Darwin.
- Ela era um de nós, por isso seu pai a matou.
- Como você sabe sobre isso?
- Eu senti a presença dela, assim como senti a sua.
- E por que não a salvou? – pergunta ele em um surto de raiva, agarrando Darwin pelas roupas.
- Solte-me, Kyle.
- Por que não a salvou?
- Solte-me, agora.
- Por que não a salvou?
- Devia ter me ouvido, Kyle.
O chão começa a se tornar líquido e começa a engolir Kyle, até que se solidifica novamente, deixando a parte inferior de seu corpo submersa:
- O que você fez? – grita ele.
- Mágica. Tem que aprender a controlar seu temperamento.
- Você fez isso?
- Manipulação da realidade. Uma de nossas habilidades.
- Você podia ter usado isso para salvar a minha mãe.
- Quando eu cheguei, ela já estava morta.
- Era só ter feito... O que você fez para nos trazer aqui.
- Para abrir um portal que me leve de um lugar a outro eu tenho que saber para onde estou indo. Do contrário poderia abrir um portal para algum lugar não muito amigável. Imagine abrir um portal para escapar de um exército e acabar caindo em um vulcão. Acho que isso já aconteceu muitos anos atrás, comigo.
- Tire-me daqui!
- Está bem. Fique calmo.
Aos poucos, Kyle é erguido, até estar totalmente liberto do chão:
- Poderia agradecer.
- Obrigado. – diz Kyle, querendo dar um soco no rosto de Darwin.
- Por nada, apesar de que eu sei que esse agradecimento não foi de boa vontade. Vamos, se vista. – diz ele pegando as roupas e as jogando para Kyle – Estarei esperando você na cozinha.
Kyle se veste e vai para a cozinha. Há uma mesa com duas cadeiras, e em uma delas é onde Darwin está sentado. Ele está tomando uísque e coloca um prato de sopa de cebola no lado oposto da mesa. Ele sinaliza com a cabeça para Kyle se sentar ali e ele caminha até lá:
- Obrigado. – diz Kyle.
- Por nada. Deve estar com fome.
- Por que você está me abrigando?
- Porque eu sei o que é ficar sozinho.
- Como você conseguiu sentir a presença da minha mãe?
- Eu estava fazendo um serviço e aí senti a presença dela. Como disse, ela já estava morta quando cheguei, mas senti a sua presença. Por sorte cheguei a tempo de salvar você e a princesa. Bem corajoso de sua parte, aliás. Sendo apenas uma criança tentou salvá-la. E também foi bem corajoso e estúpido ter entrado no bar dos Foices Vermelhas.
- Como sabe disso?
- Quem você acha que te levou de volta para o castelo?
- E como sabia que eu estava lá?
- Estava por perto e senti a sua presença.
- Você disse que somos os Filhos do Anjo Caído, e disse que somos os últimos. Por que não me levou com você quando me salvou? Por que me levou de volta para o castelo e por que me trouxe aqui?
- Eu já disse por que está aqui.
- Sim, você disse que é porque sabe como é estar sozinho. Mas é muita coincidência você estar por perto três vezes.
- Você é esperto. – diz ele sorrindo – Eu estive vigiando você, esperando o momento certo para nos unirmos.
- Esperar o momento certo?
- Sim. Você foi criado ali no castelo e era amado, mas somente porque eles e você mesmo pensavam que era um rapaz comum. Mas quando a verdade viesse à tona, de que você é um demônio, isso mudaria.
- E por que você quis esperar?
- Porque houve um período em minha vida em que eu achei que a nossa herança maldita seria ignorada, mas eu estava errado. Eu poderia tê-lo levado comigo, mas eu estava em um período em que não seria um bom cuidador, todavia eu sabia que as coisas poderiam tomar outro rumo.
- Por quê?
- Por mais que você seja bom, a nossa herança maldita sempre será um empecilho. Diga-me, como foi sua vida nesses 20 anos?
- Eu fui criado no castelo. Quem cuidou de mim foi Aidan e eu permaneci trabalhando como um criado. Eu e Celiny nos apaixonamos e planejamos fugir, mas fomos pegos e um dos guardas jogou ácido em mim. E alguma coisa aconteceu e Celiny saiu correndo enquanto o pai dela ordenou que me matassem.
- Quando estamos expostos a temperaturas extremamente altas, nossa forma verdadeira é revelada.
- Um demônio com asas.
- Sim. Foi o que aconteceu quando você foi incendiado no bar e quando o ácido foi jogado em você.
- Eu me transformei no bar?
- Não se recorda?
- Não.
- Bem, quando eu o achei, você estava desmaiado e estava voltando à sua forma humana. Mas enfim... você ia fugir com a Grande Princesa? Você é realmente corajoso. Imprudente, idiota, mas corajoso.
- Ela me abandonou. Ela disse que queria ficar comigo para sempre e me abandonou.
- É o que acontece. Quando descobrem sobre nossa herança, aqueles que amamos nos abandonam. Para entender isso, é algo que você tem que passar por conta própria. Acho melhor você ir dormir. Amanhã conversaremos mais.
- Vai mesmo me deixar aqui?
- Eu passei por uma situação semelhante quando era mais jovem, mas não tive ninguém para me ajudar. Então sim, vou deixar você ficar aqui. Sinta-se em casa, já que essa será sua nova casa.
Kyle não sabe se pode confiar em Darwin. Apesar da postura gentil do homem, ele sente que há algo mais, que ele está sendo gentil por querer algo em troca. Mas no momento ele não tem muita escolha.
No dia seguinte ele acorda após ter passado a noite inteira sonhando com Celiny. Os sonhos terminaram do mesmo jeito. Celiny estava longe dele, e quando ele a alcançava, ela saia correndo, enquanto os guardas o matam. Ele se veste e vai até a sala de estar, onde Darwin está tomando chá e lendo um jornal:
- Bom dia. – diz Darwin.
- Bom dia.
- Eu até perguntaria se você dormiu bem, mas você ficou dizendo Celiny durante toda a noite, então já tenho a resposta.
- Você disse que sabia o que era estar sozinho. O que houve com você?
- Outra hora eu lhe digo.
Kyle se enfurece com a resposta de Darwin. Ele contou sobre ele, então era justo que Darwin fizesse o mesmo. Ele vai até Darwin e arranca o jornal das mãos dele:
- Me diga agora! – grita Kyle.
- Devo-lhe lembrar de que está na minha casa. Se não se comportar farei algo pior do que fazer o chão te engolir.
- Não, não vai.
- Uau! – diz ele dando um sorriso cínico – Tanta certeza! Por que acha que não farei nada?
- Você podia ter me levado com você quando eu era criança.
- E eu expliquei por que não o fiz.
- Mas depois disso você me tirou do bar e veio me buscar ontem. Não está fazendo isso simplesmente porque quer me ajudar. Você quer algo de mim, não é?
- Ou talvez eu esteja sendo gentil com um membro da família.
- Você não é a minha família! Conte-me agora do que se trata tudo isto!
Darwin apenas encara os olhos raivosos de Kyle e começa a ter um ataque de risos:
- Qual a graça? – pergunta Kyle querendo mais do que nunca socar Darwin.
- Você é engraçado. Tentando se mostrar como alguém forte, mas ainda continua frágil.
- Eu juro que...
- Você não vai fazer nada. Até porque em um duelo entre nós dois eu mataria você facilmente. Pois bem, você quer saber o que houve comigo? Eu lhe direi. Sente-se. – diz Darwin sinalizando com a mão para que Kyle se sente no sofá. Assim que Kyle o faz ele o olha nos olhos e começa a falar – Eu nasci em 1901. Eu e minha família vivíamos bem. Herdei minhas habilidades através da minha mãe, como você. Ela nunca concordou com que os nossos ancestrais fizeram, de se aliar aos Foices Vermelhas para tomar o poder, e sonhava em ver a família usar os poderes para o bem. Ela me ensinou muito bem a como usar os meus poderes, e ela me inspirou a estudar Medicina. Durante a minha estadia na faculdade me apaixonei perdidamente pela minha colega de sala, Elizabeth. Depois de concluirmos a faculdade, nos casamos e fomos viver em um vilarejo, nas florestas, onde poderíamos ajudar mais pessoas. Nós tivemos um filho e quatro depois ela estava grávida do segundo. Um dia houve um incêndio na casa de um dos moradores. O filho da família havia ficado preso, e eu entrei na casa em chamas e consegui salvá-lo, mas nisso revelei a todos quem eu era de verdade. Como agradecimento por eu ter salvado o rapazinho, mataram minha família. Enfiaram uma faca na barriga da minha esposa e a degolaram, decapitaram o meu filho, enforcaram minha mãe. Eles tentaram me matar, mas eu matei todos ali. Mas o que mais doeu não foi perdê-los, mas ver nos olhos dela o horror em ver minha verdadeira forma, assim como Celiny ao ver a sua. Depois disso vaguei por aí fazendo alguns serviços. Para alguns nossos poderes são bem respeitados, principalmente para piratas.
- Não há algum feitiço que possa trazê-los de volta?
- Não existe nenhum feitiço capaz de fazer isso. Eu tenho procurado por décadas uma forma de trazer minha família de volta, até quase consegui certa vez, mas os resultados não foram bons.
- O que houve?
- Eles voltaram, mas não eram mais eles. Eram apenas cascas vazias e podres.
- Eu sinto muito.
- Não sinta. Porque eu finalmente achei uma forma de trazê-los de volta, de verdade. Você estava certo, eu preciso sim de você para algo. Já ouviu falar sobre a Chama de Deus?
- Não.
- Imagino. Poucas pessoas sabem a respeito.
- Mas o que é?
- Você pode se referir a ela como a teia da realidade. Quando Deus criou o céu e a Terra, quando ele criou o universo, o nosso universo não foi apenas o único a ser criado. Ele criou outras Terras, incontáveis Terras. Pense na Chama de Deus como sendo o que mantém estas incontáveis Terras unidas. Como eu disse, poucas pessoas sabem disso, mas até onde se sabe Cristo revelou aos seus apóstolos, mas esta revelação nunca chegou ao ouvido de outros. O Vaticano sabe, mas duvido que algum dia eles irão revelar sobre isso. Apesar poucas pessoas saberem sobre a Chama de Deus, um ancestral nosso descobriu sobre a chama e que aquele que tiver acesso a ela pode moldar não só a realidade, mas todo o multiverso ao seu bel prazer. Pode recriá-lo.
- Mas como ele descobriu isso?
- Ninguém sabe ao acerto, o que se sabe é apenas que ele descobriu. De acordo com ele, há dois portais. Um está em Israel, mas não é possível acessá-lo porque ele tem uma espécie de barreira invisível bem mortal, mas há outro no Vaticano, abaixo do Castelo de Santo Ângelo. Mas alguém como nós não pode ir lá já que eles têm formas de barrar um Filho do Anjo Caído, que mesmo que não sejam tão mortíferas quanto a barreira invisível em Israel, bem... ainda são mortíferas.
- Então não há como ter acesso a isso.
- Não. Pelo menos não sozinho. – diz Darwin sorrindo.
Vendo o sorriso de Darwin, Kyle entende o que ele quer com tudo isso:
- Você quer que eu o ajude.
- Exato. Este é o momento perfeito. Nós dois juntos podemos lutar contra o que estiver lá e atravessar o portal que nos levará para a Chama de Deus.
- Onde é a saída?
- Saída de onde?
- Daqui. Já me cansei de ficar ouvindo você.
- Não vê a oportunidade que temos?
- Você quer trazer sua família de volta com base em um mito.
- É real.
- E como sabe?
- Eu estive lá.
- Quando?
- Muitos anos atrás, antes de ter salvado você.
- E o portal que teoricamente é mais fácil de entrar está lá no Vaticano?
- Sim. E eles têm armas poderosas para lidar com pessoas como nós. Quando eu os enfrentei pensei que fosse morrer. Sobrevivi por pura sorte.
- Ainda duvido de tudo isso.
- Pense bem, reconstruir o multiverso nos dará a capacidade para reconstruir nossas vidas. Podemos apagar o mal que nossos ancestrais fizeram, eu posso ter a minha família de volta e você pode ter a sua mãe de volta. Pode ter Celiny ao seu lado.
Kyle pensa no que Darwin acabou de dizer. Tudo o que ele acabou de dizer não parece passar de puro delírio, mas por um lado não há nada a perder em se juntar a ele nessa ideia louca. E se for verdade, ele pode mudar tudo o que de ruim aconteceu em sua vida. Impedir que o seu pai mate sua mãe e ter uma vida feliz com Celiny:
- Eu aceito ajudar você.
- Ótimo. – diz Darwin sorridente.
- O que você precisa que eu faça?
- Primeiro você tem que dominar suas habilidades, e eu vou ajudar você a fazer isso.
- Então eu vou poder fazer o chão engolir você? Isso seria divertido.
- Você vai poder fazer muito mais que isso, Kyle.
Darwin leva Kyle para o lado externo de sua casa, e o rapaz se surpreende ao saber que a casa de Darwin fica em uma montanha:
- Por que você mora aqui?
- Porque ninguém pensaria em me procurar aqui. Agora vamos iniciar o seu treinamento.
- Está bem.
- Vamos começar... – Darwin enfia a mão esquerda no bolso esquerdo da calça e pega algo – Com isso aqui. – diz ele após retirar do bolso um isqueiro.
- Mas eu não fumo.
- Não é para fumar. Temos o poder para controlar elementos, mas para conseguir controlar cada elemento é necessária uma emoção diferente. Você está com raiva, sempre esteve. Então nada mais perfeito do que você aprender primeiro a controlar o fogo.
-Isso vai realmente funcionar?
- Apenas tente. – ele acende o isqueiro – Foque-se no fogo. Seja o fogo. O fogo é uma extensão de você, é a manifestação de toda a sua raiva.
Para Kyle, isso tudo não passa de uma grande bobagem, mas ele decide tentar seguir conforme o que Darwin disse. Ele se concentra no fogo, pensa nele como se fosse um membro de seu corpo. Ele continua se concentrando. A memória de sua mãe sendo morta surge. Ele quase consegue sentir os sons da cabeça dela sendo esmagada pelo machado do pai dele. Ele sente seus punhos cerrarem e o fogo no isqueiro começa a aumentar:
- Isso. – diz Darwin – Continue, está indo bem.
A memória de Celiny o abandonando vem em seguida, e o fogo se expande. Kyle toca nele com a mão esquerda e o faz se dividir em dois, manuseando a outra metade com a mão direita. O fogo envolve as mãos dele, fazendo com que elas se tornem mãos demoníacas flamejantes.
Diferente do que ocorreu anteriormente, Kyle não está sentindo dor, ou se está sentindo, nem está dando à mínima. Está encantado por ver as chamas alaranjadas dançarem em suas mãos. Ele as faz aumentar e as joga em direção ao céu:
- E então? – pergunta Darwin.
- Incrível.
- Com o fogo você se deu bem. Agora... – ele olha ao redor e depois volta a olhar para Kyle – Vamos ver como você se sai com o ar.
- O ar? Para que?
- É assim que conseguimos voar.
- Eu não gosto de alturas.
- Acredite em mim, você vai perder o medo depois disso. Agora se concentre no que está ao seu redor. E não sinta raiva, procure pensar em algo mais brando.
- Isso vai ser difícil.
- Para um rapaz como você não será impossível. Apenas tente. E enquanto você treina eu vou resolver um assunto pessoal.
- Mas espere...
- Apenas vá tentando.

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