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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 6: Morris


Darwin abre um portal que o leva para as docas. Lá ele se encontra com Morris, um homem de baixa estatura e de rosto simpático. Toda semana eles se encontram aqui por ser um local tranquilo e é aqui onde Morris passa as propostas de serviços para Darwin. As pessoas que costumam solicitar os serviços dele são tanto homens de negócio que querem roubar algum segredo de outros empresários para obter mais lucro quanto piratas que querem alguém para auxiliá-los caso se deparem com as autoridades ou para facilitar a captura de alguma carga preciosa, especialmente se a carga estiver em um lugar hostil:
- Morris, como vai? – pergunta Darwin dando um forte aperto de mão em Morris.
- O de sempre. – diz Morris enquanto acende um cigarro – E com um servicinho novo para você.
- É algum fácil?
- Você sabe que para alguém como você não existe serviço fácil.
- Claro que não.
- Sr. Zhang, dono do Grande Cassino Chinês.
- Já ouvi falar. Para o que é?
- Um navio pirata estava contrabandeando uma carga valiosa contendo diamantes, mas no percurso tiveram um grande imprevisto e a carga se perdeu.
- Eles querem que eu recupere a carga.
- Sim.
- Bem, então não vai ser algo difícil.
- Eles perderam perto da Cidade Draconiana. – diz Morris fazendo uma expressão séria.
Darwin sente um frio na barriga só de ouvir o nome do lugar. A Cidade Draconiana é uma ilha ocupada por híbridos de humanos e dragões, e quem é apenas humano não costuma sair vivo de lá:
- O pagamento é grande?
- Muito.
- Então vale a pena. – diz Darwin se acalmando e olhando para Morris com um largo sorriso.
- Mas até mesmo alguém como você pode ter dificuldades lá. Falando em dificuldades, o que você estava fazendo em Londres? E por que você estava voando perto do castelo na sua forma demoníaca?
- Não era eu.
- Mas você foi o único Filho do Anjo Caído que sobrou.
- Não, existe mais um. Era ele sobrevoando Londres e agora ele está comigo.
- Então... Bom para você.
- Bom? Isso é ótimo. Eu vou ter alguém para me ajudar a chegar à Chama de Deus.
- Você já tentou encontrar isso e quase morreu. Eu nem sabia que o Vaticano tinha um exército especial.
- Mas dessa vez vai ser diferente. Estou ensinando esse rapaz a usar os poderes que temos. E quando eu terminar de treiná-lo, nenhum anjo poderá nos deter.
- E por que esse... Rapaz, como você disse, aceitaria ajudar você nisso?
- O ódio é um grande motivador. E no fim ele quer o mesmo que eu.
- Você realmente acha que isso vai dar certo? Pelo que você me contou essa coisa toda de Chama de Deus é algo perigoso.
- Eu quero a minha família de volta, Morris. E esse rapaz é minha única esperança.
- Se isso der certo, pode me prometer algo?
- O que?
- Pode me fazer ser dono de um bordel?
- Por quê?
- Eu adoro mulheres.
- Vou pensar. – diz ele rindo.
- Vai aceitar o serviço?
- Sim. É um serviço de emergência, certo?
- Sim.
- Então diga ao cliente que irei conversar com ele pessoalmente em duas horas.
- Ele vive em Hong Kong.
- Isso não vai ser problema para mim. – diz ele enquanto abre um portal – Cuide-se Morris.
- Você também.
Morris é o único amigo que Darwin teve nos últimos anos. Eles se conheceram quando Darwin salvou Morris de ser morto por cobradores de apostas, e naquele período ele estava devendo muito dinheiro. Como retribuição por lhe ter salvado, Morris decidiu apresentar Darwin a contatos que lhe ofereceriam muito dinheiro em troca de serviços. Darwin já fazia isso, mas sua rede de negócios ampliou graças a Morris, que conhece muito mais gente que ele.
Morris tem um grande respeito e gratidão por Darwin, mas às vezes pensa que o homem já ultrapassou o limite da sanidade quando eles conversam a respeito da Chama de Deus. Mas em momentos, como esse, Morris lembra que está falando com alguém que é descendente do próprio Lúcifer.
Em um milésimo de segundo, Darwin retorna para o alto da montanha, onde fica sua casa e onde está Kyle, ainda tentando aprender a voar. Uma pequena parte dele se sente mal por ter deixado o garoto viver uma experiência ruim ao ver aqueles que o acolheram, principalmente seu grande amor, se voltarem contra ele, mas foi necessário. O ódio foi o que motivou Darwin a abraçar sua natureza demoníaca e a partir em busca da Chama de Deus, e o mesmo está acontecendo agora com Kyle.
Observando o rapaz se esforçando para aprender a voar o faz quase rir, mas está sendo uma experiência interessante:
- Ainda não conseguiu? – pergunta Darwin.
- Eu não posso.
- Pode sim. Só está tendo dificuldades em se concentrar, e em achar a emoção certa.
- Pensar em algo brando só está me deixando com mais raiva.
- A princesa.
- Não só ela. Eu tentei pensar na minha mãe, mas só sinto ódio de mim mesmo por não ter conseguido salvá-la. – ele olha para o chão e em seguida grita de raiva para o céu – Como você consegue isso? – pergunta ele se virando para Darwin.
- As emoções facilitam o primeiro acesso aos nossos poderes. Depois disso é questão de saber usá-los... Na dose certa.
- Isso é tudo é uma maldita perda de tempo.
- Você pode parar de reclamar por um segundo?
- E como você quer que eu pare? Eu estou tentando, mas não consigo.
- Sabe Kyle, às vezes você só precisa de um empurrãozinho.
Ventos fortes cercam Kyle. Darwin estende a mão direita e os ventos agarram Kyle e o jogam em direção ao precipício. O rapaz grita desesperado, e Darwin apenas grita para ele impedir sua queda.
Kyle cai em queda livre. O chão se torna cada vez maior. Sua vida começa a passar diante de seus olhos, fazendo com que ele se lembre de coisas que há muito tempo estavam lacradas em seu inconsciente.
Era um dia claro. Sua mãe estava recolhendo algumas flores que havia plantado atrás da casa meses antes. Ela recolheu todas, mas uma delas caiu no chão. Kyle a pega e a dá para sua mãe, que estava montando um buquê. Ela sorri ao ver a flor e o abraça.
Alguns anos depois, noite. Está chovendo. Kyle e Celiny estão observando a chuva de dentro da sala, com a lareira acesa. Trovões gritam. A menina está assustada, mas ao mesmo tempo entusiasmada. Ela segura a mão de Kyle e ele sente seu coração bater mais forte.
Dia, agora. O chão está mais nítido e a morte chama. Parada súbita. Kyle se vê flutuando, com o próprio ar segurando-o. Ele olha para cima e usa o ar para se levitar de volta para a montanha. Ele vai aos poucos, até que decide ir para lá na mesma velocidade em que estava caindo.
Ele pousa perto de onde Darwin, dando uma leve escorregada ao colocar o pé no chão:
- Como foi?
- Libertador.
- Sempre é. Apenas mais um pouco e você ficará excelente nisso. E agora...
- Tem mais?
- Você precisa aprender mais.
- Você quase me matou! Acho que já basta por hoje.
- Eu teria impedido sua queda.
- E quando teria feito isso? Depois que eu já tivesse beijado o chão?
- Você tem que aprender a confiar em mim. Mas conte-me, o que você se lembrou?
- Minha mãe e Celiny. – diz Kyle – Mas era lembranças que eu...
- Nem se recordava mais.
- Exato.
- Que bom. E tem razão, você fez bastante coisa hoje e é melhor continuar treinando o que você aprendeu. Mas nos próximos dias você terá que aprender o restante.
- Nós iremos tentar pegar essa Chama de Deus?
- Não é pegar. Iremos ao Vaticano e entrar no portal que nos levará à Chama de Deus, mas não ainda.
- Não é por isso que eu estou aqui?
- Sim, mas tenho negócios a resolver, e você irá comigo. Considere isso como um treinamento.
- E para onde vamos?
- Primeiro nós iremos ao Grande Cassino Chinês, em Hong Kong. Há alguém lá que quer me contratar para um serviço importante. Vá se arrumar.
- Por que está falando como se fosse meu pai?
- Você está sendo o meu aprendiz, então se acostume.
No castelo, os pais de Celiny vão ao quarto dela para conversar com ela:
- Você está bem, filha? – pergunta a Grande Rainha, sentando-se ao lado de Celiny na cama.
- Eu acho que sim.
- Você nunca soube sobre ele? – pergunta o Grande Rei
- Claro que não, ele sempre pareceu normal.
- Já contatou a família real da Irlanda? – pergunta a Grande Rainha.
- Sim, já.
- A família real da Irlanda? – pergunta Celiny.
- Vamos adiantar o casamento. – responde o Grande Rei – Acho que é o melhor a ser feito, considerando o que houve.
- E quanto a Kyle, o que acontecerá com ele?
- Ele está sendo procurado, e assim que for encontrado será morto.
- Pai, não! Você não pode matá-lo!
- Ele é um demônio, Celiny! Quando existia mais deles, os Filhos do Anjo Caído fizeram inúmeras atrocidades.
- Mas o Kyle não é igual a eles.
- Como saber? Você mesma disse que ele a enfeitiçou.
- Eu menti! Eu estava assustada, pai. Por favor, não permita que matem Kyle.
- Eu não posso prometer nada. Por mais que eu tenha tido consideração por ele, Kyle se tornou uma ameaça e ele tem que ser detido. Quando eu não sei, mas agora vamos nos concentrar no casamento. Espero que isso nos traga um pouco de tranquilidade depois destes dias turbulentos.

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