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sábado, 14 de abril de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 8: Destino: Cidade Draconiana


A noite vai embora, dando lugar para o dia. Kyle e Darwin vão para o Porto de Hong Kong se encontrar com a tripulação pirata. De fato são jovens, provavelmente até mais jovens que Kyle. Ela é composta por Yin, Chang e Li. Yin é quem os cumprimenta, enquanto Li permanece olhando para Kyle:
- Uma tripulação de três. – diz Darwin com tom de menosprezo em sua voz – Nunca vi isso.
- É que estamos começando. – diz Yin – Mas nós vamos nos tornar grandes piratas.
- Se é isso o que você quer para a sua vida. Vamos começar a viagem.
Eles vão para o barco da tripulação. É um barco com uma aparência envelhecida, porém grande o suficiente. Yin pega o leme e eles partem de lá:
- Então... – diz Darwin caminhando até Yin – Vocês sabem para onde nós estamos indo?
- Sabemos sim. – diz Yin sorridente.
- E isso não os deixa com medo?
- Não. Isso será bom para a nossa reputação.
- Então tomara que você sobreviva para ter uma reputação.
- Eu não tenho medo de dragões. Nem de demônios. – diz ele olhando de forma arrogante para Darwin.
No lado externo do barco, Kyle olha com admiração o mar e Hong Kong ficar cada vez menor à medida que eles avançam em direção à temida Cidade Draconiana. O momento o faz pensar novamente em Celiny. Como ele queria parar de pensar ela! Ele se lembra das vezes em que ela disse que queria viajar pelo mundo, e que ele deveria fazer o mesmo. Que ele deveria fazer mais do que ser apenas um serviçal no castelo. E agora ele está fazendo isso, saindo de Hong Kong e indo para a Cidade Draconiana. Mas uma parte dele queria que Celiny estivesse com ele, mas de resto ele está mais preocupado com a recompensa e em chegar até à Chama de Deus, se é que isso realmente existe, mas se de fato existir, ele poderá mudar sua vida para melhor.

Enquanto Kyle está olhando para o mar com admiração e, pela primeira vez em sua vida, ânsia pelo desconhecido, Celiny está olhando para Londres, mas o brilho que tinha em seus grandes olhos verdes está apagado. Seu grande amor se foi e ela agora se casará em dois dias com alguém que não ama. O casamento foi anunciado ontem. É como contar os minutos para o fim do mundo, mas o mundo dela já acabou.
Dia seguinte. Falta um dia para o casamento. As famílias estão entusiasmadas e o assunto é o mais comentado nos jornais e emissoras de rádio. A jovem desce as escadas e caminha em direção ao piano. Ao se sentar ela começa a tocar, mas as melodias, por mais que ela esteja tocando bem, soam vazias, desprovidas de alma.
Ela se levanta e caminha pelo jardim, o único lugar que traz alegria para ela na casa. Enquanto ela permanece olhando para as flores, Carrie vem conversar com ela:
- Você está bem, minha criança?
- Estou bem, obrigada.
- Sente falta dele, não sente?
- Crescemos juntos, e eu o abandonei.
- Ele é um demônio. Você tinha que se afastar dele, ou ele te mataria.
- Ele nunca fez nada para me machucar.
- Mas iria fazer cedo ou tarde.
- Como pode dizer isso? Ele cresceu aqui, nós o conhecemos. Ele nunca faria nada para nos ferir.
- Foi assim que eles fizeram centenas de anos atrás quando se aliaram às Foices Vermelhas. Viveram entre nós, e então tentaram nos matar. Quase causaram o apocalipse.
- Kyle não é assim.
- Acredite em mim quando digo, Kyle ter saído daqui foi bom. E agora um futuro bom te aguarda.
- Com o príncipe da Irlanda? Ele e nada é a mesma coisa para mim.
- Ele gosta de você. Gosta muito de você.
- Mas eu não gosto dele.
- Seus pais também não se amavam quando se casaram, mas com o tempo esse amor foi surgindo na base da confiança. Ele pode não ser o que você quer agora, mas...
- Eu não me importo. Eu não quero ficar com ele, e se pudesse não o veria nunca mais.
- Escute minha querida... – diz ela colocando as mãos sobre o rosto da jovem – Eu sei que não tenho o direito de falar isso, pois sou apenas uma criada, mas você é a Grande Princesa da Europa, e infelizmente...
- Isso quer dizer que eu tenho de abrir mão de certas coisas. Eu sei disso! Eu sei.
Dia seguinte. Casamento. O castelo, localizado no coração de Londres e ao mesmo tempo isolada dela, abriu suas portas para sua população e para os governantes de todo o continente para que possam acompanhar o grande evento. O príncipe irlandês está trajando um smoking verde escuro, com uma camisa verde claro e sapatos pretos.
Enquanto ele aguarda no altar ao lado de seus pais, Celiny está em seu quarto, com as criadas terminando de vesti-la. Seus cabelos estão ondulados, os lábios com um batom rosa claro e o seu vestido é cor creme. Ela olha para o espelho, treinando o sorriso para quando estiver lá no altar.
O momento chegou! Ela está caminhando em direção ao altar, com os olhares alegres e flashes das câmeras fotográficas. Seu coração está acelerado. Ela sente o suor descendo por suas costas dentro do vestido. Ela continua caminhando. O príncipe a olha, um olhar encantador, um olhar que pela primeira vez faz com que ela não sinta repulsa dele.
Ela sobe os degraus e logo está com as mãos dele segurando as dela. Os violinistas cessam a música e o padre começa a proferir as palavras. E então chega a pergunta:
- Você a aceita como sua legítima esposa?
- Aceito. – responde o príncipe.
A mesma pergunta é feita para Celiny. Ela demora um pouco para responder, mas diz o que todos já esperam que ela diga:
- Aceito.
- Se há alguém que deseja impedir o casamento, que fale agora ou cale-se para sempre.
Ironicamente alguém se expressa, mas não por meio de uma voz, mas por meio de balas disparadas que atravessam as nucas do Grande Rei e Rainha da Europa. Os guardas se prontificam e uma troca de tiros entre os guardas e membros das Foices Vermelhas. Celiny corre desesperada até o corpo sem vida de seus pais. Carrie e o príncipe a levam para os fundos, enquanto todos fogem pelos portões do castelo. Mas é tarde demais, as Foices Vermelhas já estão lá e estão pintando o chão do castelo com o sangue de inocentes:
- Quanta arrogância! – diz Edward – Foram tolos de terem deixado as portas do castelo abertas.
Os policiais da Scotland Yard chegam e enfrentam os criminosos, alguns são abatidos, e percebendo que a desvantagem está aumentando Edward foge com alguns de seus seguidores o acompanhando, enquanto outros são presos ou mortos.
 À noite, Celiny está em seu quarto, sentada em frente a uma escrivaninha chorando pela perda de seus pais. O príncipe entra em seu quarto, colocando as mãos sobre os ombros dela na esperança de tentar confortá-la:
- Tire suas mãos de cima de mim. – diz ela em um tom calmo, porém autoritário, sem se virar para olhar para ele.
- Perdoe-me.
- O que está fazendo aqui?
- Vim ver como minha esposa está.
- Pare de me chamar assim.
- Eu sei que isto deve ser difícil para você...
- Para! – grita ela – Estou farta de todos quererem descrever como eu me sinto. Nenhum de vocês sabe o que eu sinto.
- Eu sinto muito...
- Você deve estar adorando isso, não é?
- Me desculpe, acho que não entendi.
- Eu estou agora em meu momento mais vulnerável e você vem como um príncipe de contos de fadas para me resgatar, achando que vou cair em seus braços. Vá para o inferno.
- Eu sei que não deve gostar de mim, e não a culpo. Mas Celiny eu não... Eu não quero de forma alguma me aproveitar de você. Eu...
- Me deixa em paz!
Ela se levanta em fúria cega e o esbofeteia. Quando nota a sua mão latejar ela olha para o rosto de Declan, vendo o vergão que se formou em seu rosto com o tapa:
- Me desculpe. – diz ela se sentindo enojada com o que fez.
- Eu... – diz ele massageando o rosto – Eu entendo que esteja irritada. Só quero dizer que sinto muito mesmo pelo o que aconteceu aos seus pais.
- Tem algo mais para dizer?
- Apenas isso. Se precisar de algo estarei em meu quarto.
- Preciso sim.
- Do que?
- Diga a todos do castelo que não quero ver ninguém. E feche a porta quando for sair.
Ao sair do quarto dela Carrie vem falar com Declan:
- Como ela está?
- Ela precisa de um tempo sozinha. Por favor comunique aos outros que ela não deseja ser incomodada.
- Farei isso.
Um campo florido, uma garota sentada em meio a ele. Ele anda até ela e a toca no ombro direito. Ela se vira olhando para ele com os seus olhos verdes:
- Preciso de você, Kyle.

Kyle acorda, se amaldiçoando por não conseguir parar de pensar em Celiny.
Em Londres a manhã está cinzenta, refletindo o coração da nação. Enquanto está sendo realizados os preparos para a cerimônia de enterros do Grande Rei e da Grande Rainha, Declan, segurando um porta retrato em sua mão esquerda, vai até o quarto de Celiny e bate na porta com sua mão direita:
- Vai embora! – grita ela.
- Celiny, sou eu.
- Não quero ver você, vai embora!
- Eu só quero conversar.
- Vai embora!
Declan tira uma chave de seu bolso direito, uma cópia da chave que abre o quarto de Celiny. Ele a insere na fechadura e a abre. Ele caminha até a cama dela, onde ela está deitada, mergulhada nos cobertores, estando virada para a parede, à sua esquerda:
- Amor, você tem que...
- Cala a boca! – ela se vira para a direção dele e se senta na cama – Nós estamos noivos, mas você não significa nada para mim. O que você veio fazer aqui?
- Vim ver se você está bem.
- Agora que já viu você já pode ir.
- Você tem que se aprontar para o funeral.
- Eu não vou.
- Mas...
- Eles já estão mortos, não faz diferença.
- Eu trouxe isso para você.
Ele estende a mão esquerda e lhe dá o porta retrato, que contém uma foto antiga, de 2014. Olhando para a foto ela sente uma instantânea sensação de leveza. No dia em que a foto foi tirada, ela e Kyle estava em um piquenique com os pais dela. Foi um dia tranquilo e agradável, e é o espírito daquele dia que ela sente ao olhar para a foto, mas logo vai embora e em um ataque de fúria ela arremessa o porta retrato no chão:
- Por que você teve que me mostrar isso?
- Achei que te faria bem.
- Ah, é mesmo?! – grita ela – Kyle se foi e meus pais estão mortos! Como ver uma foto deles me faria bem?
- Acha que ficar gritando comigo vai adiantar alguma coisa?
- Eu te odeio.
- Pode me odiar o quanto quiser, mas neste momento não tem apenas uma nação, mas todo um continente que necessita de seus governantes. As pessoas que você ama não estão mais aqui, mas seus pais não iriam querer que você desse as costas para tudo. Há uma ameaça que precisa ser detida, e se você não se levantar, não se erguer, a situação só irá piorar porque há muita gente querendo o trono. E não precisamos de um conflito político interno para piorar as coisas.
- Você pode lidar com isso.
- Sim, eu posso, mas não quero lidar com isso sozinho. Escute – ele se ajoelha e pega as mãos dela – eu não sei a dor que você está sentindo. Só posso imaginar. Mas se você quer honrar a memória deles, dos seus pais. Se você quer honrar o legado deles então é hora de você ser a Grande Rainha que eles sabiam que você seria um dia.
Por mais que ela não queira mais ver a cara de Declan, Celiny sabe que ele tem razão. Ela se banha, se veste e vai até a cerimônia de enterro dar um último adeus aos seus pais, fazendo uma promessa silenciosa de que fará o possível para honrá-los.
À noite eles concluem a cerimônia de casamento, deixando a segurança reforçada desta vez, e são coroados. Com a coroa em sua cabeça, é como se Celiny sentisse que seus pais estão ali do seu lado congratulando-a por assumir o papel deles, e embora não seja e nunca será o suficiente para afastar a dor em seu coração, já é o bastante para fazê-la sentir-se feliz e com um pouco de esperança.
No coração do oceano, dentro do barco a caminho da Cidade Draconiana, Kyle está jogando cartas com Li, com quem tem conversado bastante nesses últimos dois dias. Li tem 23 anos e veio de uma família de camponeses. Buscando algo maior em sua vida, ela deixou a casa de seus pais, e seu caminho se cruzou com os de Yin e Chang, e o objetivo deles se tornou o dela também:
- Você é péssimo nisso. – diz ela com sotaque.
- Jogar cartas nunca foi o meu ponto forte. Aidan e Ben sempre me venciam.
- Aidan é o homem que criou você, certo?
- Isso.
- E Ben o seu amigo que trabalha cortando carnes.
- Isso.
- Sinto muito pela morte do Aidan.
- Obrigado. Não consegui me vingar, mas com certeza irei fazer isso.
- Você realmente os enfrentou sozinho? Não que eu esteja reclamando, mas foi bem corajoso e...
- E estúpido?
- Enfrentar um número grande de oponentes estando sozinho? Sim. – responde ela rindo – E o que você pensa sobre o Darwin?
- Ainda não confio nele. Mas o que ele está oferecendo vale a pena o risco.
- Mudar o passado. Acredita mesmo nisso?
- Eu não posso dizer que acredito totalmente nisso, mas se realmente existir posso impedir a morte do Aidan, e da minha mãe. Eu posso desfazer todas as coisas ruins que aconteceram comigo. Não aceitaria uma oportunidade como essa?
- Talvez.
- Então você não tentaria?
- Não é isso. Quer dizer, quem não iria querer, mas talvez fosse melhor deixar as coisas como estão. Nós sempre estamos fazendo erros, é parte de ser humano.
- Mas alguns erros deveriam ser consertados. Tem que ser. Se fosse você, não tentaria mesmo mudar alguma coisa na sua vida?
- Talvez toda ela. Mas essa é a vida que eu escolhi, e eu vou dar um jeito nela.
- Como?
- Eu estou juntando dinheiro. Só mais alguns trabalhos pelos próximos dois anos e aí eu irei fazer algo melhor.
- Espero que você consiga.
- Só não destrua o mundo se você encontrar essa Chama de Deus.
- Deixa comigo. – diz ele dando um leve sorriso.
Eles ouvem um estrondo. Algo bateu no barco. Chang corre e pede para eles subirem. Eles sobem rapidamente e veem algo inacreditável: os híbridos draconianos! A boa notícia é que isso significa que eles estão perto da Cidade Draconiana, mas a má notícia é que as quatro criaturas magníficas diante deles estão cuspindo fogo no barco. Kyle consegue pegar o fogo no barco, como se estivesse chamando o fogo para ele, e o direciona para atacar os draconianos, o que logicamente não surte efeito nenhum:
- Você realmente achou que atacar uma criatura que cospe fogo com fogo iria adiantar alguma coisa?! – grita Darwin.
- Eu achei que fosse dar certo!
- Maldito novato.
Darwin estende as mãos, fazendo a água ao redor deles se erguer e a usa para envolver os draconianos, que tentam se libertar, mas não conseguem. Ele transforma a água que os está envolvendo em gelo, congelando-os, e faz o gelo se partir em seguida com os pedaços deles:
- Bem... – diz ele se virando para Kyle e os demais – É assim que se faz um ótimo trabalho.
Um draconiano surge do chão do barco e agarra Darwin, esfolando sua garganta com suas garras brilhantes. Assustados, Yin, Chang e Li atiram nele e nos outros dois draconianos que aparecem. Um deles se aproxima com seu corpo humanoide escarlate forte e escamado, quase reluzente, e agarra Yin, rasgando a pele do rapaz com suas próprias garras. Kyle se joga em cima dele e tenta atacá-lo com socos, mas o draconiano o arremessa no chão e cospe fogo nele.
Kyle posiciona seus braços de forma a proteger seu rosto e apesar de inicialmente sentir dor, seus braços mudam de forma. Ele se levanta e tenta atacar novamente a criatura com socos, mas o draconiano é extremamente ágil e se desvia de todos os golpes. Ele se vira, alastrando suas asas, e com a ponta da asa direita golpeia Kyle, com um corte profundo no abdômen.
Chang corre para dentro do barco, abre um baú e pega duas espadas. Ele retorna correndo, jogando uma espada para Li, e pula na direção de um draconiano. Li olha a situação com medo, uma reação normal para qualquer um. Mas Chang não dá lugar para o medo. A excitação de estar lutando com uma criatura como um draconiano é maior. Ele consegue cortar o ombro de um deles. Sente orgulho de si próprio, imaginando que quando voltar para casa ganhará o respeito de outros piratas, talvez até tornar-se o maior pirata da China, ou da Ásia. A possibilidade de matar um draconiano o impulsiona a prosseguir a luta, mas o ataque é bloqueado, e o draconiano com o qual ele está engajando a luta cospe sua saliva flamejante, derretendo a lâmina da armadura, fazendo com a lâmina, agora líquida, caia nas mãos de Chang. Ele grita de dor e o draconiano enfia suas garras nos olhos dele e esfola sua garganta.
Mais draconianos estão vindo. Darwin se ergue, com o corte no pescoço começando a se regenerar. Avistando o que se assemelha a um ponto verde no horizonte, e o que o faz pressupor que a ilha esteja perto, Kyle abre um portal. É um movimento arriscado já que ele não sabe em que lado da ilha vai parar, mas não há muita escolha. Ele grita para Li entrar e a jovem atravessa o portal sem pensar. Ele grita para Darwin e ele atravessa o portal também, mas não sem agarrar Kyle pelo braço.
Eles caem em uma floresta:
- Para onde você nos trouxe Kyle? – pergunta Darwin.
- Acredito que aqui seja a ilha. – responde Kyle – Pelo menos eu espero que seja.
- E se eles nos acharem? – pergunta Li.
- Não se preocupem! – diz uma voz grave.
- Quem está aí? – pergunta Darwin.
- Não temam. – diz a voz.
As folhas dançam enquanto passos são ouvidos. Das folhas surge um homem de vestes rasgadas e velhas, com luvas cobrindo suas mãos. Seus cabelos se estendem ao ombro e sua pele é bronzeada. Seus olhos castanhos os encaram, mas o olhar não é de alguém que está se sentindo ameaçado, mas de alguém que está dando as boas vindas:
- Muito prazer – diz o homem – Eu me chamo Jason. Bem-vindos à Cidade Draconiana.

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